
Revelado publicamente como um colecionador que compartilha com a esposa Clotilde uma contundente paixão pela cultura africana no livro “Os Médicos e as Artes no Rio Grande do Sul”, editado pela ASRM em março último, o Acadêmico Valter Duro Garcia desvendou um universo inusitado para a maioria dos assistentes da Sessão Cultural on-line de terça-feira, 18 de agosto. “Foi um passeio cultural completo pela história dos primórdios da civilização que nos deu origem”, agradeceu um dos acadêmicos que já viajou ao continente africano várias vezes mas surpreendeu-se com a riqueza da apresentação.
Intitulada “A África Subsaariana e sua Arte Tradicional: a visão de um colecionador amador”, a abordagem foi extraída do capítulo das páginas 167 a 192 do livro. Assinados pelo casal, os textos envolvem desde definições sobre as razões do interesse em colecionar até aspectos históricos e psicológicos que determinam o valor único de cada peça das coletâneas reunidas a partir de busca em feiras, antiquários, viagens e leilões, especialmente do espólio de diplomatas que moraram em outros países.
O conjunto de arte subsaariana é apenas uma das diversas coleções da família Garcia, constituída também de miniaturas japonesas conhecidas de netsuke, livros sobre a história dos transplantes, objetos indígenas,conchas de praias visitadas, cédulas de países por onde passaram e telas de pintores brasileiros.
SUL DO SAARA
Definida pela sua localização geográfica onde é produzida, abaixo da divisa ao sul do deserto de Saara, essa arte é profundamente funcional e coletiva, unindo estética e espiritualidade, sem privilegiar a função decorativa. A manifestação artística prioriza o uso de madeiras, máscaras rituais e esculturas antropomórficas para honrar ancestrais e divindades, exercendo forte papel na coesão social da região com 54 estados soberanos e 1,5 bilhão de habitantes que falam cerca de 200 idiomas e dialetos.
O objeto artístico não serve apenas para contemplação, mas cumpre papéis rituais, políticos ou religiosos. A madeira é o material mais comum, entalhada com elementos geométricos, ao lado de trabalhos em bronze, marfim e argila. As formas humanas e animais ganham traços estilizados e geométricos, valorizando a expressão conceitual em vez do realismo estrito da civilização ocidental. Do ponto de vista dos aspectos culturais e sociais ressalta a veneração aos antepassados e forças da natureza. Como a comunidade e a tradição sobrepõem-se à assinatura individual do artista, perpetuando saberes ancestrais, muitas vezes perdem-se os nomes dos autores.
“É uma cultura em movimento que celebra a vida”, acentuou o Acadêmico Garcia, elegendo como uma de suas prediletas a primeira peça da coleção adquirida em 1983 no Gabão que, 43 anos depois, contabiliza 380 unidades e ainda considera-se um simples amador. É uma estatueta de madeira representando um pajé medindo 40 centímetros de altura e um lembrete poderoso do sentimento espiritual vivido no encontro com a alma artística da África.