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Discurso de abertura do Encontro das Academias de Medicina do Brasil, agosto de 2026.

Na pessoa do Sr. Presidente Antônio Egídio Nardi cumprimento a todas as autoridades presentes, acadêmicas ou não e já nominadas.

Estimados Confrades e Confreiras Senhoras e Senhores.

Há pouco mais de cinquenta anos, eu era um jovem estudante de Medicina na Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo e estagiário do Hospital Psiquiátrico do Juqueri.

Naqueles dias, começava a ganhar força uma ideia que hoje nos parece natural: a de que muitos pacientes internados há anos em hospitais psiquiátricos poderiam voltar ao convívio da sociedade. Entre eles estava dona Sirlei Terezinha.

Sirlei permanecera internada por trinta e seis anos. Trinta e seis anos. Mobilizamos o Serviço Social, preparamos sua saída, conversamos longamente sobre os desafios que encontraria e, finalmente, numa sexta-feira, ela recebeu alta.

Combinamos que, logo na segunda, às nove horas da manhã, ela me encontraria na Santa Casa para conversarmos sobre seus dois primeiros dias fora do hospital.

Ela chegou às onze.
Antes que eu pudesse perguntar o que havia acontecido, ela se antecipou: “Ah, doutor… atravessar aquela Avenida Paulista foi muito difícil.”

Naquele instante, compreendi que, durante toda a minha formação, eu havia aprendido muito sobre doenças, diagnósticos e tratamentos, mas ainda tinha muito a aprender sobre as pessoas.

Dona Sirlei não precisava apenas de sair do hospital. Precisava reaprender a viver num mundo que havia seguido seu curso durante trinta e seis anos sem ela. E eu precisava compreender que o conhecimento médico somente alcança sua plenitude quando consegue enxergar o ser humano que existe por trás da doença.

A lembrança daquela manhã nunca mais me abandonou. Ao longo da vida profissional, ela voltou inúmeras vezes, sempre me recordando que a Medicina não se esgota na excelência técnica. Ela somente se realiza plenamente quando o conhecimento científico se transforma em cuidado, compreensão e compromisso com a dignidade humana.

É exatamente essa convicção que me traz hoje a esta tribuna.

Vivemos um momento decisivo para o ensino médico brasileiro. Nunca se discutiu tanto a formação dos futuros médicos. Nunca se produziram análises tão consistentes sobre suas fragilidades e seus desafios.

Se aquela manhã, diante da Avenida Paulista, ensinou algo a um jovem estudante de Medicina, talvez hoje ela tenha a oportunidade de ensinar alguma coisa a todos nós. Afinal, formar um médico é prepará-lo para milhares de encontros semelhantes, nos quais o conhecimento médico precisará reconhecer, diante de si, não apenas uma doença, mas uma pessoa, com sua história, seus medos, seus sonhos e seus limites.

É essa convicção que inspira este Encontro. Não estamos aqui para ampliar o diagnóstico dos problemas do ensino médico brasileiro. Outros já o fizeram, e o fizeram com competência. Nossa responsabilidade é outra: dar um passo adiante. Transformar reflexão em proposta, conhecimento em compromisso e debate em ações concretas que contribuam para formar médicos cada vez mais preparados para cuidar de pessoas.

É inevitável reconhecer que existe um certo ceticismo sempre que se anuncia mais um encontro, mais um congresso, mais um fórum de debates. Afinal, quantas vezes documentos consistentes foram produzidos, aprovados com entusiasmo e, pouco tempo depois, silenciosamente arquivados?

Essa preocupação não nos é estranha. Ao contrário, ela nos acompanha desde o momento em que começamos a conceber este Encontro.

Talvez por isso me venha à memória uma das passagens mais belas da literatura brasileira: o diálogo entre Severino retirante e o mestre Carpina, em Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto.

Depois de percorrer um caminho marcado pela pobreza, pelo sofrimento e pela desesperança, Severino já não consegue enxergar sentido em continuar sua caminhada. É então que presencia o nascimento de uma criança. E o mestre Carpina lhe mostra que aquele nascimento, por mais humilde que seja, não resolverá os problemas do mundo, mas demonstra que a vida continua merecendo ser vivida e que sempre existe a possibilidade de um novo começo.

Gosto de pensar que este Encontro ocupa lugar semelhante.

Não pretendemos imaginar que, ao término destes dois dias, todos os problemas do ensino médico brasileiro estarão resolvidos. Seria uma pretensão incompatível com a realidade.

O que pretendemos, no entanto, é algo igualmente importante: fazer nascer uma criança.

Essa criança não é uma metáfora abstrata. Ela será o conjunto de propostas concretas, responsáveis, tecnicamente fundamentadas e institucionalmente exequíveis que construiremos juntos ao longo deste Encontro. Propostas capazes de ultrapassar os limites deste auditório e chegar às universidades, às entidades médicas, aos órgãos reguladores e aos formuladores das políticas públicas de saúde e de educação.

Essa sempre foi, aliás, uma das mais nobres vocações das Academias de Medicina. Quando a Academia Nacional de Medicina foi fundada, há quase duzentos anos, já nascia com a missão de atuar como instância consultiva do Estado brasileiro na formulação de políticas públicas para a saúde. Ao longo de sua história, manteve-se fiel a esse compromisso.

É essa tradição que desejamos honrar.

Não estamos aqui apenas para refletir sobre o futuro. Estamos aqui para assumir responsabilidade por ele.

Se conseguirmos que, ao final deste Encontro, nossas conclusões se transformem em recomendações efetivamente capazes de influenciar decisões e aperfeiçoar a formação médica brasileira, teremos cumprido nosso dever.

E talvez possamos voltar para casa com a mesma sensação que experimentei naquela distante segunda-feira, quando ouvi dona Sirlei dizer que atravessar a Avenida Paulista havia sido muito difícil.

Durante muito tempo pensei que aquela frase falava apenas das dificuldades de uma mulher que retornava ao convívio social depois de trinta e seis anos de internação.

Hoje compreendo que ela dizia muito mais.

Ela lembrava que, entre o conhecimento e a vida, sempre existe uma avenida a ser atravessada.

A missão da boa Medicina é construir pontes sobre essa avenida.

E a missão do bom ensino médico é preparar cada nova geração de médicos para atravessá-la ao lado de seus pacientes.

Se, ao final destes dois dias, repito, conseguirmos construir algumas dessas pontes, ainda que modestas, este Encontro já terá cumprido plenamente sua finalidade.

Sirlei imaginava que me falava da Avenida Paulista.

Na verdade, ela estava me ensinando o que é a Medicina e essa Medicina, convenhamos, não é possível ser ensinada em faculdades como a maioria das abertas recentemente.

Muito obrigado.

  • Porto Alegre, 28 de agosto de 2026.