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Discurso de posse da Diretoria da Academia Nacional de Medicina – Biênio 2026-2027 | Ac. JJ Camargo

Com meu boa noite Sr. Presidente, estendo meus cumprimentos aos ilustres ex-presidentes, às autoridades previamente nominadas, deputados homenageados, confrades, confreiras, convidados, senhoras e senhores.

Agradeço o privilégio de estar aqui, neste momento tão importante na vida dessa instituição que se aproxima animada e faceira para a comemoração de dois séculos de existência, e poder dizer do orgulho que sentimos todos de receber a cada um dos nossos ilustres convidados, para esse momento de posse da nova diretoria.

Uma Academia, terá obrigatoriamente a sua própria história, construída em décadas de existência, e que representa o somatório das histórias de vida de cada um dos 692 acadêmicos que um dia cruzaram este umbral, depois daquela a reunião de 30 de junho de 1829, liderada por Joaquim Candido Soares de Meireles, que se tornou primeiro presidente, da chamada Sociedade de Medicina do Rio de Janeiro, que durante algum tempo se reuniu na casa do seu presidente.

Em 1835, numa época tormentosa entre os dois reinados, ela passou a ser denominada Academia Imperial de Medicina e as reuniões semanais, foram levadas para o Paço Imperial. Com a Proclamação da República, assumiu a identidade definitiva de Academia Nacional de Medicina, e manteve a tradição de encontros semanais, que desde 1958, ocorrem neste endereço, hoje engalanado para recebê-los.

A riqueza de uma instituição, com essa longa trajetória que cruzou tempos tumultuados e desafiadores, foi edificada pela soma das entregas pessoais de cada um dos seus acadêmicos, que com indisfarçável orgulho, e clara noção da responsabilidade, estão determinados a amá-la e protegê-la.

Para todos nós, independente do grau variável de autoestima que nos distingue, a chegada à ANM, foi um momento marcante em nossas vidas, não importando a idade que tínhamos quando chegamos.

Um desses momentos que arquivamos com zelo e saudável orgulho que marcam nossas conquistas superiores, e que obrigatoriamente rememoramos quando o tema é gratidão.

Meu primeiro contato com a academia ocorreu na virada do século, e nasceu do convite reiterado do inesquecível professor Affonso Tarantino para que mostrasse a nossa experiência incipiente com transplante de pulmão. Quando pela primeira vez entrei neste salão, foi irreprimível a sensação de encantamento e transcendência. 

Tudo me impressionou muito, o pé direito alto, as figuras eternizadas em bustos e estátuas de bronze, os quadros magníficos, as citações em grego decorando paredes, a imponência da escada que acessa o oitavo andar. Nem a presença enigmática daquela cobra assustadora no caminho dos elevadores comprometeu meu deslumbramento.

 A minha relação, cada vez mais amorosa com esta casa, progrediu quando fui convidado a voltar, para apresentar uma experiência que marcou a minha vida: a do transplante de pulmão com doadores vivos. Ao final, os comentários comovidos da Professora Anna Lídia do Amaral iluminaram a minha percepção: este lugar, com sua imponência incontestável, era também um templo do que a medicina tem, na minha opinião, de mais valioso, a naturalidade do convívio com a emoção.

Naquela noite memorável, me dei conta que passados mais de 30 anos da morte do meu avô, ainda reverberava em mim, a sua recomendação inesquecível e cheia de significado “-Nunca percas tempo com os rígidos de afeto”.

Com sua sabedoria genuína, ele já tinha identificado a importância daquilo que anos depois viria a ser reconhecido como inteligência emocional.

Claro que ter recebido a comenda Alfred Jurzikowski , em junho de 93, foi importante, tanto que ela ocupa com justiça um lugar de destaque na minha parede das memórias definitivas, mas eu já tinha sido completamente seduzido, e quando o Professor  Augusto Paulino, numa das nossas conversas inesquecíveis, disse-me este era um lugar ótimo para envelhecer, e eu me prometi em silêncio, que caso fosse aceito, iria tentar contribuir para justificar a acolhida generosa antes que o tal envelhecimento chegasse.

Se havia alguma dúvida de que este não era um lugar comum, ela se dissipou quando, na disputa pela vaga, convivi com Milton Meier, e a instantaneidade da relação afetuosa, bilateral, simétrica, e sem precedentes que construímos, ficou sacramentada no cumprimento que recebi dele no dia da eleição: “Parabéns meu amigo, perdi de novo, mas desta vez ganhei em te conhecer”

A propósito Milton, eu continuo na busca, que hoje sei inútil, de encontrar alguém com tamanha generosidade, nobreza e fidalguia.

Deslumbrado com a conquista deste espaço que reúne, em doses generosas, os mais ricos sentimentos humanos, foi estimulante descobrir que a Academia é também exigente com seus amores adotivos, e como uma amante implacável, ela não tolera ser amada pela metade.

Em troca, empresta aos que lhe devotam entrega e paixão, uma alegria, que os inquilinos distraídos, nunca conhecerão, e passando no vazio, não saberão o que perderam. 

Passados 16 anos, e com uma proximidade cada vez mais compulsória com a velhice, reconheço a naturalidade da morte, mas isso não impõe conformismo com a perda de dezenas de confrades que partiram.

Ainda bem que a saudade se encarregou de mantê-los vivos, com a conivência da nossa memória tendenciosa.

 Gabriel Garcia Márquez escreveu que “nossa sensação de pertencimento a um lugar, só será verdadeira se já tivermos enterrado lá, um dos nossos amados” 

Se é assim, nossas raízes nesta Casa, têm a profundidade da saudade ilimitada.

Consciente que cada um de nós tem um jeito próprio de sofrer, e não desconsiderando a escala de sofrimento que construímos individualmente com nossas perdas, elegi cinco mortes que doeram em mim, com direito a uma fisgada fortuita, de vez em quando: Affonso Tarantino, Marcos Moraes, Ricardo Cruz, Orlando Marques Vieira e Sérgio Novis.

Quando escrevia este texto me dei conta que ele, acomodado na mesma poltrona, com um sorriso bonachão sempre engatilhado, e com a mão esquerda pronta para um afago, torna imperiosa a inclusão de uma morte recente, que ainda estamos sofrendo na tentativa de elaborá-la:  então seja bem-vindo Professor Omar da Rosa Santos à galeria das memórias definitivas.

Na obrigação inadiável de juntar nossos cacos afetivos, recomecemos, com a consciência da obrigação de honrar a lembrança dos tantos que seguirão  vivos em nós.

Em homenagem aos que continuarão sendo inspiração e modelo, agradeço hoje a honrosa oportunidade de ter participado das diretorias dos últimos 12 anos, e festejo a ventura de ter encontrado aqui seres humanos tão superiores quanto surpreendentes, todos identificados por um sentimento comum: o amor incondicional por esta casa. 

Meu primeiro encantamento foi com Marcos Moraes, com sua atitude paternal orientando um calouro inseguro com um ritual desconhecido. 

Depois à Professora Eliete Bouskelá, que durante a visita acadêmica orientou-me, com extrema delicadeza, reconhecendo que minha monografia relatando a experiência com transplante pulmonar intervivos era maravilhosa, mas enviar uma cópia a todos os acadêmicos era um exagero sem precedentes. Nunca esqueci o carinho daquela visita, querida Eliete.

Adiante, por ocasião da minha posse, o sempre presidente Pietro Novelino com quem eu aprenderia a reconhecer o quanto a entrega pessoal a um cargo pode ser inspiradora e se transformar em devoção. 

A seguir Francisco Sampaio cuja aproximação afetiva foi acelerada pela idolatria que ambos dedicávamos ao Mestre Tarantino e justifica a necessidade que sentimos de relembrar alguma de suas histórias deliciosas cada vez que nos encontramos.

 E então, o Presidente Jorge Alberto Costa e Silva, que com sua visão cosmopolita enriqueceu nossas relações, e seguimos aprendendo muito com ele.

A chegada de Rubens Belfort Jr à presidência da Academia, trouxe duas originalidades: a de primeiro Presidente de outro Estado, e logo com a necessidade inegociável de gerir por dois anos, uma entidade bissecular, tornada virtual pela pandemia. 

O desafio enfrentado com seu dinamismo e criatividade, manteve a Academia intransigente em manter sua rotina de reuniões semanais. E quando o medo do desconhecido universalizou, desfilaram por estas telas, americanos, , ingleses, portugueses, argentinos, espanhóis e chineses, e a Academia foi internacional como nunca.

Como era de se esperar, sem o chá das 17 h, lamentávamos muito a carência dos abraços, que tanta falta fizeram diante de perdas dolorosas que tivemos.

 Ao fim de dois anos, e de volta à vida real, saudamos o retorno do Francisco Sampaio com energia renovada, e com seu talento de gestor implacável na busca de sustentabilidade econômica para os futuros muitos anos da nossa amada ANM. Poucas pessoas fizeram tanto por esta casa.

 Nesta noite, em que mais uma vez testemunhamos nova passagem de bastão, mais que obrigatório é prazeroso agradecer o apoio incondicional que recebemos na última gestão, que revelou o brilho da nossa presidente Eliete Bousquelá, que vencendo tradição e preconceito cumpriu um mandato com liderança e iniciativa impecáveis, e por toda a sua diretoria que revelou neste período a fraternidade Indispensável para construção de um futuro que por sina e sorte, nunca estará pronto.

É nesta trincheira, que tem a solidez da permanência invejável de 197 anos, que temos o compromisso moral de defender os princípios elementares da Medicina, essa profissão maravilhosa, que segundo uma agricultora analfabeta do sertão nordestino, que tive a felicidade de transplantar, e que não precisou de nenhuma qualificação intelectual para concluir “que deve ter sido inventada por Deus, para aliviar o sofrimento das pessoas.” 

Uma determinação estatutária específica e reiterada ao longo do tempo, prevê que é responsabilidade da ANM  atuar como órgão de consulta do governo brasileiro em políticas de saúde e educação médica.

Em nome desse compromisso histórico, devemos nos insurgir contra o aviltamento da formação de profissionais gerados em escolas precárias, e sem nenhum constrangimento de lançar no mercado, médicos subqualificados que logo ali, serão os cuidadores dos nossos filhos, e atentem para o tamanho da responsabilidade, dos nossos netos. 

Os índices de desempenho escancarados pelo ENAMED são alarmantes, mostrando que um alto percentual dessas Faculdades rudimentares, tiveram desempenho péssimo, confirmando o previsível: não é possível improvisar na formação de quem vai cuidar do nosso bem maior, e não  é justo que estes arremedos médicos estejam destinados a quem nunca teve a chance de escolha.

Felizmente os Ministérios da Educação e da Saúde, anunciaram medidas restritivas à criação de novas escolas e vigilância quanto ao funcionamento das já instaladas.

 Que isso seja cumprido, porque o povo brasileiro merece   esse cuidado elementar, para proteger sua saúde e preservar sua dignidade.

Neste século de descobertas vertiginosas, é igualmente nossa responsabilidade urgente de buscarmos o máximo de tecnologia, mas ela nunca será mais que uma parceira, que usando os prodígios de IA, trará contribuições científicas primorosas.

Quanto mais soubermos da inteligência artificial, melhor nos serviremos de suas habilidades, e mais habilitados estaremos para identificar os nossos limites de separação.  Por ora, podemos assegurar que enquanto não for possível colocar sentimentos humanos nos complicados algoritmos da máquina, a figura do médico seguirá imprescindível.

Sem preconceitos e como beneficiários diretos, devemos comemorar que a IA seja capaz, por exemplo, de compor músicas encantadoras, ainda que ela, coitada, não tenha olhos para marejar ao ouvi-las, e nunca saberá o quanto é bom poder dançá-las.

 Não conseguindo colocar emoção nos textos que escreva, ela desconhecerá o fascínio da intuição e do improviso, e como máquina, enferrujará sem ter provado o encanto do silêncio compartilhado entre duas pessoas que se amam.

Então, festejemos esse inalcançável banco de dados, disponível para contribuir como um diferencial da ciência nestas décadas de transformação, provocando em cada um de nós a saudável alternância de sensações entre a gratidão pelo que conquistamos e a expectativa, ansiosa e estimulante, pelo que virá. 

A inteligência artificial não veio para banir o trabalho do médico, mas certamente para modificá-lo, adequando-o a uma nova realidade.

De qualquer maneira, e como sempre, pesará sobre o médico a responsabilidade moral da tomada de decisão, e este peso será maior  diante de situações raras e urgentes, quando a máquina calará se os seus algoritmos  descobrirem que ainda não há  protocolos suficientemente  seguros sobre o assunto, e não adiantará  insistir:  ela, não foi planejada para improvisar.

Os avanços tecnológicos que nos assombram, só reafirmam que o tempo da ciência é o tempo do movimento, e é responsabilidade primordial dessa Academia, reconhecer e validar cada uma dessas fabulosas conquistas sem jamais abdicar do humanismo, essa virtude que nós, os veteranos, aprendemos a valorizar  há muito tempo, e que precisamos passar adiante com pertinácia, para que os mais jovens não negligenciem o que a medicina de todos os tempos tem de mais fascinante: o convívio didático com pessoas autenticadas pelo sofrimento.

A postos para um novo desafio, me dei conta que a liderança natural do Antônio Egídio Nardi, trouxe para nosso convívio um elemento precioso e original na projeção do futuro: a naturalidade, que gera confiança e previsibilidade, estas que são virtudes vinculadas ao caráter e, portanto, definitivas.

Obrigado Presidente Nardi, pelo modelo de serenidade, pelo privilégio da parceria, e pela segurança intuitiva que deve significar termos um psiquiatra consagrado, a vigiar-nos. 

Com a maturidade, que o passado nos ensinou a reconhecer como o único caminho para justificar o tempo que vivemos, sigamos em frente, intolerantes com a resignação e a mediocridade. Porque é para isso que fomos feitos. E não podemos aceitar que tenhamos vindo a esse mundo para sermos menos que protagonistas.

E se houvesse necessidade de melhores argumentos como estímulo para seguirmos na busca da inatingível perfeição, eu lembraria do que o grande Guimarães Rosa escreveu numa carta ao seu amigo, Antônio Azeredo da Silveira:

 “Penso que chega um momento na vida da gente em que o nosso único dever é lutar ferozmente para introduzir no tempo de cada dia, o máximo de eternidade”

Obrigado

J.J.Camargo

Rio de Janeiro, 03 de março de 2026.