“Senhora Presidente do Museu de História da Medicina do Rio Grande do Sul, Dra. Leonor Schwartzmann,
Dr. Marcelo Matias, Presidente do Sindicato Médico do Rio Grande do Sul,
Demais autoridades e representantes das instituições médicas e acadêmicas aqui presentes,
Familiares, amigos, senhoras e senhores.
É com profunda emoção e grande honra que ocupo este espaço em nome da família Sarmento Leite.
Permitam-me inicialmente saudar a presença de meu pai, Thiago Roberto Sarmento Leite, de minha mãe, Eunice, e de minha irmã, Mariana, meu cunhado Mauro e sobrinha Anna Clara, e de minha esposa Paula, que hoje compartilham conosco este momento de especial significado para nós.
Gostaria também de justificar as ausências de minha filha Maria Antônia, estudante de Medicina, que muito gostaria de estar presente nesta cerimônia. Infelizmente, compromissos acadêmico previamente assumidos e inadiáveis impediram sua participação.
Estão, porém, muito bem representadas por meus sogros, Nestor (médico também) e Maria Helena, e por meu filho Bernardo, que hoje nos acompanham. Quem sabe, no futuro, ele também venha a trilhar os caminhos da medicina e contribuir para honrar a história, os valores e o legado que recebemos de nossos antepassados e de nosso ilustre ancestral.
Hoje vivemos um momento especial. Um momento em que memória, história e gratidão se encontram.
Reunimo-nos para homenagear a trajetória do Professor Eduardo Sarmento Leite da Fonseca, meu bisavô, e para realizar a doação de sua máscara mortuária ao Museu de História da Medicina do Rio Grande do Sul, onde passará a integrar o patrimônio histórico e cultural da medicina gaúcha.
Preservada por nossa família desde seu falecimento, em 24 de abril de 1935, esta peça atravessou gerações como um símbolo de lembrança, respeito e admiração. Hoje entendemos que ela pertence não apenas aos seus descendentes, mas também à história da medicina do Rio Grande do Sul.
Nascido em Porto Alegre em 7 de abril de 1868, Eduardo Sarmento Leite formou-se médico pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro em 1890. Retornou ao Rio Grande do Sul trazendo consigo não apenas conhecimento, mas um extraordinário espírito de construção, serviço e pioneirismo.
Foi pai de cinco filhos, dos quais dois seguiram a medicina. Um deles foi meu avô paterno, Gaspar Rogério Sarmento Leite. Embora eu não tenha tido a oportunidade de conhecê-lo, tenho a honra de carregar seu nome. Aliás, chamo-me Rogério Eduardo justamente em homenagem aos dois: meu avô e meu bisavô.
Diz a história que o Professor Eduardo Sarmento Leite, então considerado um dos mais habilidosos cirurgiões de sua geração, foi o primeiro a realizar e a ensinar a técnica da apendicectomia em nosso meio — condição que, como sabemos, quando não diagnosticada e tratada a tempo, podia ter consequências fatais.
Foi um dos fundadores da Faculdade de Medicina de Porto Alegre, atual Faculdade de Medicina da UFRGS. Exerceu os cargos de professor catedrático de Anatomia, vice-diretor e diretor por mais de duas décadas. Foi também o primeiro diretor do Instituto Anatômico, então considerado um dos mais modernos da América Latina.
Sua atuação ultrapassou os limites da universidade. Participou da vida política e da organização sanitária da cidade e do Estado, dirigiu o Lazareto dos Variolosos, enfrentou a epidemia de peste bubônica de 1901 e liderou o Hospital de Emergência durante a pandemia de gripe espanhola de 1918. Em cada desafio de sua época colocou seu conhecimento, sua energia e sua liderança a serviço da população.
Mas, ao recordar sua trajetória, acredito que seu legado vai muito além dos cargos que ocupou e das instituições que ajudou a construir.
O que mais impressiona é a dimensão humana de sua vida.
Os relatos preservados por familiares, alunos, colegas e historiadores descrevem um homem dotado de profundo espírito solidário, genuína empatia e absoluto desprendimento material.
Eduardo Sarmento Leite nasceu em uma família privilegiada, cercado por condições que lhe permitiriam uma vida confortável e distante das dificuldades enfrentadas pela maioria das pessoas de sua época.
Entretanto, escolheu outro caminho.
Escolheu dedicar sua vida e grande parte de seu patrimônio pessoal à construção de um sonho coletivo: a consolidação do ensino médico e da assistência à saúde em nosso Estado.
Conta-se que empregou recursos próprios para viabilizar projetos, sustentar iniciativas acadêmicas e ajudar a construir instituições que hoje fazem parte da história da medicina gaúcha.
Não buscava reconhecimento pessoal.
Não acumulava prestígio em benefício próprio.
Via a medicina como uma missão, uma responsabilidade social e um compromisso com as futuras gerações.
Talvez seja por isso que tenha conquistado algo muito mais valioso do que títulos ou homenagens: o afeto sincero de seus alunos.
A gratidão daqueles que aprenderam com seu exemplo tornou-se evidente no momento de sua despedida.
Os registros históricos relatam que uma multidão formada por estudantes, colegas, amigos e admiradores acompanhou seu cortejo fúnebre. Muitos de seus alunos fizeram questão de carregar seu caixão, numa demonstração espontânea de respeito, carinho e reconhecimento.
Poucos professores recebem uma homenagem tão autêntica. Poucos homens deixam marcas tão profundas.
Ao olhar para esta máscara mortuária, não vejo apenas a representação de meu bisavô.
Vejo um homem que dedicou sua inteligência, seu trabalho, seu tempo e até mesmo seu patrimônio pessoal à construção de algo maior do que si próprio.
Vejo um professor admirado por seus alunos.
Vejo um médico comprometido com seus pacientes.
Vejo um cidadão que compreendeu que o verdadeiro sentido do conhecimento está em colocá-lo a serviço da comunidade.
Talvez por isso, mais de noventa anos após sua partida, ainda estejamos aqui reunidos — não apenas para recordar sua vida, mas para celebrar os valores que ela representou.
Histórias — e também estórias, como se dizia antigamente, algumas delas hilárias — foram transmitidas ao longo das décadas e registradas em livros, anedotários, almanaques e relatos da medicina gaúcha.
Memórias que ajudaram a construir uma espécie de patrimônio afetivo em torno de sua figura.
Não por acaso ficou conhecido como “o professor dos médicos”.
Mais do que ensinar medicina, ajudou a formar gerações de médicos e a consolidar os alicerces da educação médica em nosso Estado.
Seu nome foi eternizado não apenas na memória das instituições que ajudou a construir, mas também em importantes símbolos da vida acadêmica e médica do Rio Grande do Sul.
O Centro Acadêmico Sarmento Leite, da Faculdade de Medicina da UFRGS, onde tive a sorte, a honra e o privilégio de me formar, perpetua junto aos estudantes os valores que marcaram sua trajetória.
Seu nome também está presente na geografia de Porto Alegre, na Rua Sarmento Leite, que passa em frente ao belo e histórico prédio da Faculdade de Medicina, lembrando diariamente a todos nós a dimensão de sua contribuição.
Permitam-me ainda uma referência pessoal.
Tenho a honra de ocupar a Cadeira nº 21 da Academia Sul-Rio-Grandense de Medicina, aqui representada por seu Presidente, Dr. Sérgio de Paula Ramos, cujo patrono é justamente meu bisavô, Eduardo Sarmento Leite.
Para mim, essa circunstância possui um significado muito especial. Ela representa um elo entre gerações e a responsabilidade permanente de preservar os valores de uma medicina construída sobre conhecimento, serviço, generosidade e compromisso com a sociedade.
Na Academia Sul-Rio-Grandense de Medicina, assim como neste Museu, encontram-se preservadas as memórias de muitos dos grandes nomes da medicina gaúcha. É motivo de profundo orgulho ver que Eduardo Sarmento Leite permanece entre eles.
Mas esta cerimônia também nos lembra que a memória não se preserva sozinha.
Ela depende de pessoas que compreendem o valor da história e dedicam seu tempo para mantê-la viva.
Por isso, gostaria de fazer um agradecimento muito especial ao meu pai, Thiago Roberto Sarmento Leite.
Embora não tenha seguido a carreira médica, poucos contribuíram tanto para preservar e divulgar o legado de Eduardo Sarmento Leite.
Seu entusiasmo, sua dedicação e seu compromisso com a valorização da cultura médica e da história do Rio Grande do Sul fizeram dele um verdadeiro guardião da memória familiar.
Ao longo de muitos anos, vem reunindo documentos, preservando objetos, compartilhando histórias e mantendo viva a chama de uma herança que hoje ultrapassa os limites de nossa família e pertence à própria história da medicina gaúcha.
Esta homenagem de hoje também é resultado de sua persistência, de seu trabalho silencioso e de seu amor por nossas origens.
Obrigado, pai.
Desejo registrar nossa sincera gratidão à Professora Miriam Oliveira e ao Dr. Germano Bonow, ilustres membros da Academia Sul-Rio-Grandense de Medicina; ao Sindicato Médico do Rio Grande do Sul, na pessoa de seu Presidente, Dr. Marcelo Matias, meu amigo e colega de longa data; e à Diretoria do Museu de História da Medicina, na pessoa de sua Presidente, Dra. Leonor Schwartzmann.
Agradeço a todos pela sensibilidade com que acolheram esta iniciativa e pelo extraordinário trabalho dedicado à preservação da memória médica de nosso Estado. Sem o incentivo e o apoio de cada um de vocês, este momento não teria se concretizado.
Ao doar esta máscara mortuária ao Museu de História da Medicina do Rio Grande do Sul, nossa família compartilha com a sociedade um fragmento dessa história. Que ela permaneça aqui como testemunho de uma vida dedicada ao bem comum e como inspiração para todos aqueles que acreditam que a medicina é, antes de tudo, um ato de serviço.
Em uma época em que tanto se discute o futuro da medicina, talvez seja oportuno recordar que seus alicerces continuam os mesmos: conhecimento, generosidade, compromisso com o próximo e espírito de serviço. Esses foram os valores que orientaram a vida de Eduardo Sarmento Leite e que continuam a inspirar sua família e todos aqueles que conhecem sua história.
A todos que tornaram este momento possível, nossa mais sincera gratidão.
Muito obrigado!“
Rogério Sarmento-Leite e familiares
17 de junho de 2026.