Ilustre Vice-Presidente, Prezados Confrades, familiares que nos honram com suas presenças, amigos, senhoras e senhores.
“Se há problemas do nosso meio, que envolvem conhecimento e atuação médica, é preciso participar.”
Com essas palavras, pronunciadas há mais de quatro décadas, Gerda Horn Caleffi transmitiu muito mais do que uma opinião sobre o exercício da Medicina. Deixou um testemunho de vida. Participar foi, talvez, o verbo que melhor definiu a sua trajetória. Participou da construção de instituições, da defesa da classe médica, da formação continuada dos profissionais e da ampliação dos espaços destinados às mulheres na liderança da Medicina gaúcha. Nunca assistiu à história da plateia; ajudou a escrevê-la.
Hoje, ao evocarmos sua memória, não homenageamos apenas a primeira mulher a presidir a AMRIGS ou a única mulher entre os fundadores da Academia Sul-Rio- Grandense de Medicina. Homenageamos a médica que compreendeu que o conhecimento traz consigo um compromisso: o de servir, construir e deixar caminhos mais largos para aqueles que virão depois de nós. Gerda Caleffi foi, em toda a extensão da palavra, presença. E é essa presença que permanece entre nós.
A Academia Sul-Rio-Grandense de Medicina reúne-se hoje para prestar essa homenagem carregada de respeito e reconhecimento à memória da Acadêmica Dra. Gerda Horn Caleffi, membro fundador da cadeira número 26, cuja trajetória humana e profissional se confunde com parte significativa da história da medicina Rio-grandense.
Nascida em Porto Alegre, em 18 de agosto de 1936, formou- se em Medicina pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul em 1963. Especializou-se em Neurologia e Eletroencefalografia, áreas nas quais construiu sólida reputação científica e assistencial. Atuou na Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre, no Hospital Psiquiátrico São Pedro e em consultório privado, dedicando-se igualmente ao ensino, à pesquisa e ao aperfeiçoamento permanente. Sua inquietação intelectual levou-a ainda à pós-graduação em Neuroanatomia e, mais tarde, ao Mestrado em Ecologia, demonstrando uma rara capacidade de ampliar horizontes sem jamais perder o compromisso com a Medicina.
Entretanto, limitar sua biografia aos títulos acadêmicos seria insuficiente. A grandeza de Gerda Caleffi manifestou-se, sobretudo, na liderança exercida em favor da classe médica. Em uma época em que poucas mulheres alcançavam posições institucionais de destaque, rompeu barreiras com discrição, competência e firmeza. Em 1984 tornou-se a primeira — e permanece a única — mulher eleita presidente da Associação Médica do Rio Grande do Sul (AMRIGS), conduzindo a entidade durante três mandatos consecutivos. Sob sua administração consolidou-se a nova sede da Associação, ampliando sua estrutura e fortalecendo o associativismo médico no Estado. Seu exemplo abriu caminhos para gerações de médicas que passaram a enxergar nas instituições representativas um espaço legítimo de liderança feminina.
A Academia Sul-Rio-Grandense de Medicina guarda, de maneira muito especial, a marca indelével de sua presença. Dra. Gerda foi a única mulher entre os sessenta médicos fundadores da Academia, em 1990. Em um ambiente predominantemente masculino, sua participação simbolizou
não apenas uma conquista pessoal, mas um marco na valorização da competência, da igualdade de oportunidades e da pluralidade na vida científica. Nos primeiros anos da Academia, demonstrou generosidade concreta ao disponibilizar espaço na sede da AMRIGS para que a jovem instituição pudesse iniciar suas atividades, gesto que revela seu profundo espírito de cooperação e compromisso com o fortalecimento das entidades médicas gaúchas.
Sua existência também foi marcada pela coragem diante das adversidades. Após a perda precoce do marido, assumiu com admirável determinação a criação de suas quatro filhas, conciliando as responsabilidades familiares com intensa atividade profissional e institucional. Fez da dificuldade uma demonstração de resiliência, transformando a dor em força, o dever em exemplo e o trabalho em missão.
Nos anos posteriores, ampliou ainda mais seus interesses, dedicando-se às questões ambientais, à produção sustentável e à literatura. Escreveu poesias, contos e crônicas, revelando uma sensibilidade que sempre acompanhou sua sólida formação científica. Era uma mulher de múltiplos talentos, capaz de unir ciência e humanismo, razão e sensibilidade, liderança e delicadeza.
A Dra. Gerda Horn Caleffi pertence à rara categoria daqueles cuja influência ultrapassa o exercício individual da profissão. Seu legado encontra-se nas instituições que ajudou a fortalecer, nas transformações que promoveu, nas pessoas que inspirou e na dignidade com que exerceu cada um dos papeis que a vida lhe confiou: médica, neurologista, dirigente associativa, acadêmica, mãe, escritora e cidadã.
Ao reverenciarmos sua memória, não recordamos apenas uma biografia de realizações extraordinárias. Celebramos um modo de viver a Medicina baseado na ética, na competência, no espírito público e no compromisso permanente com o bem comum. Sua história permanece como referência para todos aqueles que compreendem que a verdadeira liderança não se impõe pelo poder, mas se conquista pelo exemplo.
A Academia Sul-Rio-Grandense de Medicina em nome de todos os Acadêmicos inclina-se, respeitosamente, diante da memória de uma de suas fundadoras mais ilustres, reconhecendo que sua vida engrandeceu a Medicina gaúcha e enriqueceu, de forma permanente, a história desta Casa.
À Dra. Gerda Horn Caleffi, nossa reverência, nosso reconhecimento e nossa eterna gratidão.
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- Discurso de Homenagem Póstuma para Confreira Dra. Gerda Horn Caleffi – Membro Fundadora da cadeira número 26, da Academia Sul Rio-Grandense de Medicina
- Proferido pela Acadêmica Titular da Cadeira número 20: Dra. Maria Helena Itaqui Lopes
- Data: 25 de julho de 2026.