A fotografia entrou na minha vida como o documento que definia famílias e parentesco. Em
Camaquã, onde morei até os 7 anos, e depois em Porto Alegre, fotografia era sinônimo de
Retrato, que se tirava em estúdios de fotógrafos com sobrenome Polonês ou germânico, e
onde íamos com hora marcada, para eternizar a família em fotos solenes. Também no colégio,
onde tirávamos uma foto anual sentados, com Mapa-múndi ou Globo ao lado e bandeira
nacional ao fundo, com a impressão do nome do Grupo Escolar. E em domingos solenes, em
churrascarias, com a família sentada à mês com posição séria, e slides em veraneios, junto ao
guarda-sol ou sentados no cômoro, com fotos que chegavam na semana seguinte em um
dispositivo para olhar frente a uma fonte de luz. O processo de revelação era misterioso,
levava dias, e se mostrava uma técnica secreta. Depois no colégio de aplicação, onde entrei
aos 11 anos, a fotografia se mostrou um processo compreensível, quando tivemos aulas de
revelação, e aprendíamos a química do preparo de reagentes e fixadores, que revelávamos em
garagem de colegas. O mistério passou a ser a técnica de aquisição da imagem, para selecionar
velocidade, profundidade de campo, diafragma, estudar a luz e o enquadramento, aí virou
uma arte, que surgia com o aprendizado minucioso da técnica. Minha primeira máquina foi
uma Flika, de plástico, de diafragma fixo, não tinha como escolher muito, mas aprendia
espiando os colegas, e especialmente colegas da aula de meu irmão Silvio, entre eles o
Roberto Giugliani, que cedo dominava técnica de luz, havia inclusive fotografado o eclipse da
lua em Bagé, e cedo ficou lendário. Mais velhos também dominavam a arte e técnica, como o
Leonid (Uda) Streliaev e o Ivan Pinheiro Machado. Espiávamos suas façanhas e habilidades.
Mesmo com as limitações técnicas, mais do que documentar cenas ou fatos solenes, preferia o
inusitado, o instantâneo, o não planejado, sejam animais de jardim, o olhar sonolento de uma
irmã acordando, ou colocando um garfo na boca, um animal rastejando, uma árvore
desfolhada com galhos expressivos se abrindo ao céu. Depois de dominar a técnica, me
interessei pelo trabalho com sombras, perspectivas, o uso do alto contraste para proporcionar
gravidade para cenas triviais. Então veio o Golpe Militar, que fez com que foto passasse a ser
algo perigoso, revelador de cumplicidades e posições que poderiam levar a prisão, ou mesmo
desaparecimento. Em casa, caixas de fotos guardadas com carinho pelo meu pai, de encontros,
churrascos, recepções em aeroportos e em comícios, sempre com a figura daquele que era seu
vizinho de campo em São Borja e amigo de infância, o Presidente João (Jango) Goulart,
passaram e ser perigosas, de se descobertas em batidas surpresa, poderiam levar o dono à
prisão, e mesmo desaparecimento. Estas fotos passaram a ser rasgadas e depois incineradas,
e as que localizei depois restaram perdidas no meio de páginas de livros. Mas a eliminação
destas provas dos crimes terríveis de amizade campeira não desfez o perigo de ter o meu pai
marcado, e por vários meses vivíamos na expectativa de chegar a casa e não encontrá-lo no
fim do dia. Felizmente isto nuca ocorreu, mas levou-o a um “degredo” profissional, posi como
era de cargo de carreira do Banco do Brasil e especialista em crédito rural, e um dos
fundadores do Movimento Cooperativista, ficou privado de todos os cargos de decisão,
passando a lidar com microcrédito, com pequenos agricultores no vale dos Sinos, Taquari e do
Gravataí. O que por outro lado foi um presente, pois por anos acompanhava o mesmo às
tardes em visitas com barcos fretados no cais junto ao Mercado Público, ou em carros de
Carreira para visitar pequenas propriedades nos vales destes rios, e enquanto ele vistoriava,
media áreas e conversava com a peonada, eu ficava escalando árvores, mexendo mecanismos
de poços, de porteiras, observando porteiros e galpões e pensava em ângulos e luzes para
documentar aquela cena, de poços com corda, galpões com luz entrando pelas frestas, cuscos espalhados pelo chão, fogueira no galpão com uma lata “chicolateira” largando fumaça, que
serviam depois de inspiração para fotografias elaboradas nos nossos estúdios primitivos.
Depois entrou o cinema, com a grande inspiração do filme “Blow Up’, em que a foto tinha o
poder de mostrar coisas escondidas, se o fotógrafo usar sua criatividade, ousadia e rapidez
para registrar cenas que depois no laboratório revelavam segredos”. Da Flika passei para
maquinas com maior capacidade de regulagem, até chegar ao sonho da máquina Reflex com
diferentes jogos de lentes e filtros. Minha grande parceira passou a ser uma Pentax Reflex, que
fui enriquecendo de acessórios, e registrou décadas de vida, e que recuperei mesmo depois de
furtada de casa de veraneio. Desolado pelo furto, passei meses procurando máquinas usadas
para comprar, e vi em anúncio no correio do Povo uma descrição exatamente igual ao que foi
levado, desde máquina, lentes, filtros, maleta, tripé e flash. Contratei um detetive, que junto
com uma inspetora de policia se passando por comprador, recuperou todo o equipamento.
Recuperada, a máquina teve vida longa, até a chegada das máquinas digitais, e por fim
aposentada com o advento do celular com câmera embutida. Mas seguiu o interesse na
fotografia para registrar o inusitado, o misterioso, o ângulo diferente, o gesto, o olhar, a
postura, a composição eternizadora de um momento, de um caráter, de uma intenção, de um
valor. Um instrumento que revela o objeto e o autor, que sintetiza e eterniza um momento
único do encontro daquele que fotografa e daquele ou daquilo que é fotografado. Até hoje.