FACULDADE DE MEDICINA (Texto enviado para ZH Opinião em 1996)
Uma coleção de imagens características da cidade de Porto Alegre certamente incluiria o velho prédio neoclássico da Faculdade de Medicina, na esquina da Sarmento Leite (nome de um de seus :fundadores) com o Parque da Redenção. Modernidades viárias inacabadas terminai,am por tirar-lhe um pouco a vista, mas olhar para seu frontispício arredondado, entremeado por colunas, sobranceiro à escadaria de mármore, ainda desperta solene sensação de respeito.
Não olhem demais, não reparem os detalhes, nem tentem visitá-lo por dentro. Verão que as luminárias estão faltando de suas colgaduras, está com a sua pele (ou pintura) doente, sujo, empoeirado, com feridas em suas laterais, das quais purgam condicionadores de ar mal colocados.
Por dentro, nem se fala. Se o pó for examinado, pode revelar de dez a trinta anos de inferências arqueológicas. Remendos, enjambrações e “grafittis” por todo o lado. Os vitrais, as escadas internas de mármore, os corrimões de ferro trabalhado, ainda escaparam, provavelmente protegidos pelo desuso.
A terceira Faculdade de Medicina do país foi criada em 1898 e construída por um grupo de médicos com apoio de seus clientes, muito antes da existência da universidade à qual, se incorporou e que agora desviou o prédio de suas :funções. Embora ainda se possa ler a designação original em sua fachada, foi-lhe aposta uma placa acanhada como Instituo de Biociências. A Faculdade de Medicina perdeu sua identidade, escondendo-se à sombra do Hospital de Clinicas.
Em que pesem todos os méritos dos grandes hospitais para o treinamento de alguns tipos de especialistas, faltam-lhes no entanto as condições básicas para a formação de médicos que, antes de tudo, os especialistas precisam ser.
Estas mudanças não foram fortuitas, elas expressam muito bem nossa cultura popular e também acadêmica: O abandono da Faculdade de Medicina, o desvio de :funções, a perda da identidade, são símbolos e expressão eloquente do transformismo emergente que pretende utilizar o que sobra da credibilidade de uma profissão, para vender produtos em forma de empresas de serviços, cooperativas, seguros e tantas outras apresentações mercadológicas.
Aliás, é só olhar para o outro lado do viaduto, para se ver em contraponto, uma construção luxuosa e bem cuidada, dedicada ao culto do mercado.
Dentro de dois anos comemorar-se-á um século de existência. Os antigos alunos e todos quantos ainda valorizam uma profissão que tinha como seu compromisso básico a pessoa humana estão sendo arregimentados, para discutir seus símbolos e valores ameaçados de extinção. Tem havido muita polêmica sobre a abertura de uma nova faculdade de medicina em Porto Alegre. Neste momento é bom pensar no que se fez com a primeira. Será que é preciso vir dinheiro e·· empresários de fora para mexer com os brios daqueles que já estão por aqui há tanto tempo? As faculdades de medicina existentes já estariam diplomando profissionais em número suficiente. Será que o estado a que foram relegados os monumentos, os símbolos e os valores da medicina, bem como o perfil dos formandos, estaria dando a impressão de que não se sabe mais como passar adiante o caduceu?