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Depoimento com Acadêmicos – Dr. Luiz Roberto Stigler Marczyk

“O médico é uma espécie de mecânico de pessoas”, afirma o ortopedista, na busca de um vínculo vocacional com seu avô polonês, Stanislaw Marczyk. Este trabalhava no movimentado porto de Gdansk, na Polônia, quando os empresários ingleses que administravam o empreendimento transferiram seus mecânicos para a Argentina, para construir o porto de Bahía Blanca. O trabalho incluía a perigosa atividade de mergulho em águas marítimas que, no inverno, ficavam infestadas por tubarões. E, quando o segundo colega foi atacado e morto, Stanislaw entregou o escafandro e pediu para romper o contrato. Diante da negativa dos patrões, ele não teve alternativa a não ser fugir para o Paraguai e, depois, para o Brasil, chegando, por fim, a Porto Alegre, onde se estabilizou e se notabilizou como um competente mecânico de veículos automotores. Um dos filhos, Carlos, cursou Medicina na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, onde conheceu uma rara futura médica: a estudante de origem alemã Elisa Stigler, com quem acabaria se casando.

Formado em 1944, o casal mudou-se para Alegrete, na fronteira oeste rio-grandense, ainda conturbada pelos impactos da Segunda Guerra Mundial, em andamento na Europa. Ali, no dia 7 de dezembro do ano seguinte, 1945, nasceu o filho Luiz Roberto, que cedo mostrou o desejo de seguir a profissão dos pais. Assim, aos 15 anos, depois de concluir os estudos iniciais na escola Oswaldo Aranha, na cidade natal, o jovem transferiu-se para Porto Alegre, atrás do sonho de cursar a faculdade de Medicina.
Residia nas instalações do colégio Champagnat, da mesma congregação marista responsável pelo colégio Rosário, onde concluiu os estudos para concorrer no vestibular. Passou também na Faculdade Católica, mas preferiu a UFRGS por conta da experiência positiva dos pais. Graduou-se em 1969 e, definido pela ortopedia, seguiu o conselho do pai para aprimorar-se na especialidade em São Paulo. Fez residência médica em Ortopedia e Traumatologia, de 1970 a 1973, no Hospital das Clínicas de São Paulo, da Universidade de São Paulo (USP). Foi auxiliar de ensino de 1974 a 1976, logo após terminar a residência, na própria Faculdade de Medicina da USP. Nesta, fez residência e iniciou a atividade docente, concluindo mestrado em Ortopedia e Traumatologia no ano de 1976. Foi o primeiro mestre formado pela Faculdade de Medicina de São Paulo na especialidade. Foi chefe de plantão do Pronto-Socorro de Traumatologia do Hospital das Clínicas de São Paulo, de 1975 a 1976. Residente em São Paulo, obteve o 1° lugar no primeiro exame brasileiro para título de especialista pela Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (SBOT), prestado em Belo Horizonte, em 1973. Dos que foram aprovados, ele foi o primeiro a fazer parte da banca examinadora como titular. Também foi o primeiro dos examinados para obtenção do título de especialista da SBOT que passou a fazer parte da Comissão de Ensino e Treinamento da Sociedade, atividade que exerceu por quatro anos. Foi, após, para a Comissão de Educação Continuada da mesma sociedade, onde foi vice-presidente.

A vontade juvenil de voltar ao estado para clinicar em Alegrete esvaiu-se diante de uma realidade que apontava outra direção, e ele ficou mais quatro anos em terras paulistas. Só em 1977 voltou a Porto Alegre e dedicou-se à vida acadêmica na UFRGS. Logo chegou a ser professor do Departamento de Cirurgia, sem deixar de exercer cargos administrativos. É Professor Titular de Ortopedia e Traumatologia da Faculdade de Medicina da UFRGS. Foi chefe do Serviço de Ortopedia e Traumatologia do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA) por mais de 15 anos.

A experiência com jogadores de futebol do time paulista do Palmeiras facilitou a aproximação profissional com o clube do coração, o Grêmio. “Nunca fui empregado do clube e sempre estive à disposição de modo voluntário por mais de 15 anos”, esclarece ele. O convívio com atletas de competição, vitimados sobretudo por lesões no joelho, foi importante para ele desenvolver estudos científicos comparativos, enquanto atuava no Hospital de Clínicas de Porto Alegre e ministrava aulas como professor titular da Medicina da UFRGS.

“Constatei que o prazo correto de recuperação de uma ruptura do ligamento cruzado anterior do joelho é bem diferente para um atleta profissional em comparação com um ‘paciente normal’. O atleta sofre a pressão de uma recuperação obrigatoriamente mais rápida para voltar logo à atividade profissional, até para contemplar o clube que o emprega. Assim, o limite de recuperação é variável, podendo ser de três ou de seis meses, ou até mais, no caso de pacientes que podem ficar mais tempo se recuperando sem retomar com pressa a rotina.”

Os experimentos práticos, que lhe valeram citações em livros e artigos, além de palestras no exterior, ainda envolvem seu pioneirismo no uso do artroscópio nas cirurgias de joelho, graças ao aparelho adquirido por seus pais na Europa. Criticado por estimular a utilização do novo equipamento em intervenções no abdômen, Marczyk ofereceu uma experiência inusitada a colegas céticos. Introduziu uma moeda no interior de uma melancia e mostrou que, com a ajuda do artroscópio, podia ver em detalhes o dinheiro.

Marczyk recebeu homenagens e honrarias em diferentes lugares. Tornou-se Fellow Clinical Research em Ortopedia e Traumatologia pela Universidade de Toronto, Canadá, em 1978. É Active International Member of the American Academy of Orthopaedic Surgeons; Active Member of the International Society of Arthroscopy, Knee Surgery and Orthopaedic Sports Medicine; Member of the Société Internationale de Chirurgie Orthopédique et de Traumatologie. Diretor científico do Serviço de Traumatologia do Sistema Hospitalar Mãe de Deus de Porto Alegre, foi presidente e fundador da Fundação Médica do Rio Grande do Sul. Membro eleito do Conselho da Faculdade de Medicina da UFRGS e do Conselho Diretor do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, fundou e presidiu a Associação de Médicos Assistentes do HCPA. Foi fundador e presidente da Sociedade Brasileira de Artroscopia. Também foi fundador da Sociedade Brasileira de Cirurgia do Joelho, bem como da Sociedade Brasileira de Cirurgia do Pé. Recebeu o Título de Cidadão Honorário de Porto Alegre em 2013.

Casado com a psicóloga Maria Tereza, é avô de três netos e tem três filhos, todos profissionais da área da saúde. Camile é psicóloga, Fabiane é médica radiologista e o filho, ortopedista e traumatologista como ele, chama-se Carlos Stanislaw, em homenagem dupla ao pai e ao avô do Acadêmico Luiz Roberto.

Assista ao depoimento completo do Acadêmico no vídeo disponível abaixo: