A quarta entre seis filhos pelotenses de Odete e do bancário Francisco Baptista, ela ingressou na Faculdade de Medicina como Ana Maria Alves Baptista. Com avô materno, tio e primo médicos, ela diz que não teve influência direta da família para escolher o vestibular de Medicina, depois de cursar os estudos no Instituto de Educação Assis Brasil, onde a mãe lecionava. Na UFPel, o brilhante professor de Pneumologia Paulo Centeno foi seu inspirador pela atração pela fisiologia do aparelho respiratório. Mas, como não havia residência em Pelotas, realizou estágio prático no Pavilhão Pereira Filho, na Santa Casa de Porto Alegre.
Graduada em 1977, já casada com seu ex-professor Flávio Menezes, transferiu-se para a cidade de Southampton, na Inglaterra, em 1979, onde desfrutou de uma bolsa de estudos. Ali, o casal enfrentou um dilema de âmbito familiar com sua gravidez inesperada. Seu orientador, Jack Howell, questionou se, como outras jovens colegas da universidade em situação similar faziam com naturalidade, ela não iria interromper a gestação. Com o suporte do marido, Ana afirmou que seria mãe, custasse o que fosse. O professor respeitou sua escolha e imediatamente tomou as providências legais, encaminhando-a para o acompanhamento médico e hospitalar, com custeio inteiramente gratuito.
Depois de três anos, em 1983, a família, aumentada pela pequena inglesa, voltou a Pelotas — onde reforça a convicção da importância de uma família grande e unida.
Em 1989, sob supervisão do lendário Mário Rigatto e do laureado epidemiologista Cesar Victora, realizou doutorado na UFRGS.
Após o término do doutorado, passou a dedicar-se inteiramente à pesquisa científica universitária, atuando exclusivamente na UFPel. Como sempre aconteceu ao longo de quase meio século de convívio, quando ela precisou, mais uma vez, de apoio integral em momentos decisivos, ele não a decepcionou. Se a redução da renda da família de quatro pessoas fosse recompensada pela realização do sonho da paixão que ela cultivava pela pneumologia e epidemiologia, o futuro pai de Carolina e Adriana não titubeou nem por um momento. Feliz com a parceria do marido, ela lembrou quando era aluna do quarto ano de Medicina, em 1976, e decidiu casar-se com o professor de Patologia, Flávio Menezes, do qual herdou de imediato o sobrenome.
Em 1993, com Cesar Victora, coordenou o estudo de mortalidade da coorte em Pelotas, que até hoje acompanha a saúde de todas as crianças nascidas na cidade naquele ano, tendo contribuído para demonstrar a importância de fatores presentes durante a gestação e os primeiros anos de vida sobre a saúde respiratória a longo prazo.
A partir daí, consolidou uma carreira profissional consistente e reconhecida como referência internacional. Está no ranking dos cem primeiros autores mais citados sobre a Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC) na literatura científica mundial, publicado pelo International Journal of Chronic Obstructive Pulmonary Disease. À frente do estudo Platino, coordenou o pioneiro levantamento populacional sobre a prevalência de bronquite crônica e enfisema na América Latina, mostrando que a proporção dessas doenças, diretamente associadas ao fumo, era quase duas vezes maior do que projeções anteriores ao estudo. Suas pesquisas ajudaram a Agência Internacional de Pesquisa em Câncer, da Organização Mundial da Saúde (OMS), a estabelecer a relação entre tabagismo e câncer, especialmente tumores de cabeça e pescoço, e doenças pulmonares. E evidências mais recentes de seu trabalho no Estudo de Prevalência da Infecção por Covid-19 no Brasil (Epicovid19-BR) revelaram a alta frequência de alterações de olfato e paladar em infecções pelo Sars-CoV-2, o que aponta esse sintoma como importante auxiliar no diagnóstico de casos de infecção por coronavírus.
O impacto e a relevância científica de estudos como esses renderam-lhe o reconhecimento da Embaixada e dos Consulados dos Estados Unidos no Brasil, que elegeram a professora emérita da UFPel entre as sete brasileiras vencedoras do prêmio Brazilian Women Making a Difference (Mulheres Brasileiras que Fazem a Diferença) de 2021.
Mais recentemente, nas proximidades do seu aniversário, em 16 de julho, a professora titular emérita aposentada na área da Pneumologia e Clínica Médica e professora permanente do Programa de Pós-Graduação em Epidemiologia da UFPel ganhou um presente emocionante.
A filha Adriana revelou que está grávida de Joana, a primeira neta da parceria de Ana e Flávio.