Ela não esconde a emoção quando menciona a importância dos familiares, que se acentua ao agregar a vinculação de todos com a área da saúde — isto é, com o que chama de missão de dedicar-se à cura dos doentes, com o objetivo final de melhorar a vida da população. A primeira citada na lista genealógica é a mãe, Maria Clotilde, enfermeira que conheceu o imigrante alemão, aqui chegado com 20 anos, Carlos Germano Henrique Menke, logo que ele enviuvou em pleno Hospital Santa Rita, onde a primeira esposa, com um câncer em estado terminal, faleceu. Esse hospital do complexo da Santa Casa de Porto Alegre, onde os pais se conheceram, namoraram e casaram, é justamente seu endereço profissional “da sua vida inteira”, após graduar-se médica em 1975 — há exatos 50 anos.
Depois, veio a influência do irmão, 11 anos mais velho, Carlos Henrique, que quase a levou para a Ginecologia e Obstetrícia, para montarem um consultório das especialidades que se complementam. Ela, entretanto, não se encantou como se fascinou pela Neurologia.
Após o irmão doutor, ela encontrou, em 1974, o dentista Pedro Aleixo Barea, com quem teve duas filhas: uma dentista, Ludmila, e outra médica urologista, Bianca, com carreira na Irlanda, e que já lhe deram três netos, entre três e 13 anos. “Uma família estruturada dá estabilidade, que é necessária e fundamental para a boa trajetória profissional”, defende ela.
Mas não só familiares profissionais da medicina a cativam. Há mestres que a inspiram, como, sobretudo, o Dr. Cássio de Matos, que impressionou ela e os colegas de aula prática no HPS quando, munido de um simples alfinete, fez um teste de sensibilidade em um paciente que havia caído de um andaime de três metros de altura e estava com a parte inferior do corpo paralisada. O neurologista surpreendeu a todos ao decretar um diagnóstico certeiro: “Ele tem uma lesão da vértebra L3 ou L4”, disse convicto, sem nenhum apoio de exames de imagem, ainda desconhecidos aqui. “Ali, naquele momento, deu o ‘click’ para eu me decidir pela Neurologia”, confessa a acadêmica Liselotte Menke Barea, titular da cadeira da ASRM, onde seu irmão, Carlos Henrique, exerceu a presidência em 2018/2019 e 2019/2020.
Nesse sentido de gratificação com a medicina, ela cita ainda o que chama de case de sucesso de um médico estrangeiro que, em 2019, veio cumprir um programa de especialização constituído com apoio da Santa Casa e do Cremers, na UFCSPA, onde ela lecionava. “Depois do curso, o jovem Dr. Claudio Monsalve voltou a Bogotá e transformou completamente a neurologia e a medicina da Colômbia”, conta, com satisfação, estimando que o programa já envolveu cerca de 20 visitantes. “Monsalve criou serviços de neurologia e até residência médica na especialidade. Esta atividade permite que disseminemos a nossa neurologia além das fronteiras nacionais, qualificando o atendimento neurológico para a população sul-americana.” Ela participa de forma regular, desde 2016, desta formação e orientação de médicos estrangeiros em Neurologia e Neurologia Pediátrica, provenientes, em sua grande maioria, do Equador e da Colômbia, países que não conseguem realizar essa formação qualificada.
A Dra. Liselotte nasceu em Porto Alegre, em 1951, fez os estudos fundamentais no Colégio São João e cursou o científico no Colégio Júlio de Castilhos, antes de ser aprovada no vestibular para a antiga Faculdade Católica (que virou fundação e, em 2008, definiu-se, por fim, como Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre — UFCSPA). Nesse ambiente, aproximou-se de outros integrantes da ASRM, como a presidente acadêmica Miriam da Costa Oliveira (com quem realizou mestrado em Farmacologia), com o colega e depois acadêmico Jefferson Piva, e com a acadêmica Newra Tellechea Rotta, que a orientou na residência em Neurologia Pediátrica. Também na residência médica, conviveu com a direção do Prof. Celso Machado de Aquino, patrono da ASRM.
A ASRM, para Liselotte, tem como tarefa principal preservar os princípios éticos e científicos para consolidar a perseguição à melhor medicina para a população.
No ano de 1983, por meio de concurso público, obteve o título de especialista em Neurologia Pediátrica junto à Academia Brasileira de Neurologia e à Sociedade Brasileira de Pediatria. A carreira docente iniciou como professora substituta de Neurologia da Fundação Faculdade Federal de Ciências Médicas de Porto Alegre (FFFCMPA, hoje UFCSPA), nos anos de 1986–1987. Em 1989, por concurso público, ingressou no quadro permanente de professores de Neurologia.
Também atuou como docente nos cursos de Psicologia da Pontifícia Universidade Católica do RS (PUCRS), nos anos de 1987–1989, e da FFFCMPA, nos anos de 2006–2014. Desde 2006, atua como docente da disciplina de Neurologia Aplicada à Fonoaudiologia da UFCSPA.
Em 1992, obteve o título de mestre em Farmacologia pela FFFCMPA e, em sequência, o doutorado em Farmacologia, concluído em 1995. A tese rendeu um multicitado artigo publicado na revista Cephalalgia.
Na ISCMPA e na UFCSPA, exerceu vários cargos administrativos. De 1997 a 2017, atuou como supervisora do Programa de Residência Médica em Neurologia e Neurologia Pediátrica da UFCSPA–ISCMPA.
Protagonizou, nos anos 1990, um pioneirismo ao implantar e coordenar o atendimento de emergência para os pacientes com crise aguda de cefaleia na ISCMPA — serviço inédito no RS.
Exerceu o cargo de pró-diretora de Graduação na FFFCMPA de 2004 a 2007, período no qual participou ativamente da implantação dos novos cursos de Psicologia, Enfermagem e Fonoaudiologia. Em 2008, após a transformação da FFFCMPA na Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre, assumiu o cargo de pró-reitora de Graduação.
Como chefe do Serviço de Neurologia da ISCMPA, de 2017 a 2023, estruturou a Linha de Cuidado do AVC no SUS, para avaliação e tratamento multiprofissional, com o objetivo de reduzir a incapacidade gerada pelo AVC, e ampliou as subáreas da neurologia, como Neurogenética, Neurovascular, Neurocognição, Neuroimunologia, Neuromuscular, Doenças do Movimento, Epilepsia e Cefaleia.
Participou de mais de 300 eventos ao longo da carreira, com inserção em mais de 200 atividades.
Participou de diferentes cargos e comissões da Associação Médica do RS, Sociedade de Neurologia e Neurocirurgia do RS (SNNRS), Associação Brasileira de Neurologia e Psiquiatria Infantil (ABENEPI), Capítulo Gaúcho da ABENEPI, Academia Brasileira de Neurologia (ABN), Sociedade Brasileira de Cefaleia (SBCe), Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP). É sócia ativa da International Headache Society (IHS), SBCe, ABN, SNNRS e SBP.
Foi presidente do Congresso Gaúcho da ABENEPI em 1987, assim como do capítulo regional dessa entidade associativa por dois anos. Presidiu a SNNRS (1996–1997) e o Congresso de Neurologia e Neurocirurgia do RS em 1996. Em 2010, presidiu o Congresso Brasileiro de Cefaleia, promovido pela Sociedade Brasileira de Cefaleia, na cidade de Gramado.
De 1992 até 2002, integrou a Comissão de Ensino da Academia Brasileira de Neurologia, sendo responsável pela implantação de provas regulares anuais de Neurologia nos serviços de residência cadastrados junto à ABN. Também participou, durante dez anos, da elaboração das provas teóricas e práticas para obtenção do Título de Especialista com Área de Atuação em Neurologia Pediátrica.