O debate sobre o momento crítico da educação médica no país, promovido pela Academia Sul-Rio-Grandense de Medicina (ASRM) na Reunião Científica do último sábado, 29 de novembro, evidenciou consensos importantes entre dirigentes de entidades médicas gaúchas. Um deles é categórico: o Brasil enfrenta a mais grave crise na formação de médicos de sua história — uma crise que ameaça diretamente o ponto final do processo, o paciente.
Com 494 escolas de medicina, o Brasil é o segundo país do mundo em número absoluto de faculdades, atrás apenas da Índia. Mas, quando se observa a proporção por população, o cenário se inverte: o Brasil passa a ocupar o primeiro lugar mundial, com 2,3 escolas por milhão de habitantes, índice muito superior ao de países como Estados Unidos (0,6), Inglaterra (0,7) e Índia (0,4).
A essa realidade somam-se a indefinição quanto aos testes de proficiência e a insegurança sobre diretrizes curriculares, aprofundando um cenário já preocupante.
O presidente do CREMERS, Dr. Regis Angnes, avaliou que há poucas perspectivas de mudança estrutural enquanto prevalecer uma política governamental que prioriza o aumento do número de médicos em detrimento da excelência da formação.
O presidente do Simers, Dr. Marcelo Matias, compartilha a mesma avaliação. Ambos reforçaram que, diante desse contexto, as entidades seguem atuando de forma permanente e estratégica, denunciando irregularidades, buscando responsabilização institucional e alertando para os riscos que médicos mal formados representam à segurança dos pacientes.
Segundo os dirigentes, o país assiste à consolidação da precarização e mercantilização da formação médica, marcada pelo predomínio de instituições privadas e por mensalidades elevadas que endividam estudantes e famílias.
Entre as estratégias defendidas estão a pressão política e judicial — acionando Ministérios, órgãos de fiscalização e o Ministério Público — para suspender novos editais de abertura de cursos e intensificar a supervisão sobre faculdades já existentes, especialmente aquelas criadas por decisão judicial.
A representante da ABEM, Dra. Denise Afonso, reforçou que a entidade é contrária à abertura de novos cursos e defende que nenhum formando conclua a graduação sem realizar residência médica. Ao mesmo tempo, destacou avanços na construção coletiva de soluções, por meio de oficinas, debates e escutas qualificadas que consideram as novas demandas da formação médica, como inteligência artificial, inovação tecnológica e robótica.
A discussão sobre a educação médica tem mobilizado a agenda da ASRM, especialmente por meio do Núcleo de Educação Médica (NEMA), coordenado pelo vice-presidente Acadêmico Darcy Ribeiro Pinto Filho, responsável pela condução da reunião.
Segundo ele, “o estudo técnico-científico que embasa os pareceres da Academia e seu posicionamento contrário à abertura de novos cursos seguirá avançando em 2026, com mais debates e aprofundamento de análises”. Darcy reforçou que o tema é complexo e exige integrar as perspectivas de universidades, docentes, estudantes, médicos e dos Ministérios da Educação e da Saúde.



