
Quem assistiu à Sessão Cultural da Academia Sul-Rio-Grandense de Medicina (ASRM) da última terça-feira, 21 de junho, jamais verá da mesma forma uma pintura de Pieter Bruegel, considerado o mais importante pintor flamengo do século XVI.
Surpreendente para a maioria dos participantes da transmissão on-line, a palestra “Iconografia, simbolismo e comunicação”, ministrada pelo diretor cultural da entidade, Acadêmico Cláudio Marroni, foi uma verdadeira e fascinante aula sobre os simbolismos aos quais o pintor miniaturista (1525–1569) recorreu para transmitir mensagens disfarçadas e contornar a censura religiosa e política da época, fazendo críticas e sátiras aos costumes da sociedade de seu tempo.
Um exemplo surpreendente está na pintura “Provérbios Holandeses”, também chamada de “A mulher do manto azul”, na qual podem ser identificadas 112 alusões a provérbios populares. Uma delas é representada por uma mulher vestida com o vermelho da luxúria, que cobre o marido idoso com uma capa azul, sugerindo uma traição conjugal.
Bruegel é o emissor do processo, e a mensagem transmitida está na pintura. Ao receptor cabe decifrá-la para além da estética. “Quanto mais conhecimento, mais condições terá para entender a obra de Bruegel, o Velho.” Isso significa ler e interpretar sua manifestação pictórica dentro de um contexto de contestação, indo além das aparências mais evidentes de alegria e harmonia da vida camponesa, que o artista privilegiou representar ao se afastar dos temas religiosos e mitológicos tradicionais.
Célebre por retratar o cotidiano, Bruegel elevou as cenas do dia a dia e os costumes populares à categoria de arte principal. Conhecido como “Bruegel dos Camponeses”, documentou em suas pinturas, de forma realista e bem-humorada, os hábitos, as festas e até mesmo o sofrimento dos trabalhadores rurais da época.
Entre suas obras mais famosas estão A Torre de Babel, O Triunfo da Morte e Caçadores na Neve.
Em algumas pinturas, o próprio Bruegel retratou-se no cenário, em um detalhe quase imperceptível: um cadeado sobre a boca, simbolizando o silêncio verbal que deveria observar.
Antes de exibir os slides coloridos com obras de Bruegel — reiterando que não recorreu à inteligência artificial, mas apenas aos recursos do PowerPoint —, Marroni apresentou um panorama teórico sobre iconografia, ícones e conceitos relacionados ao processo da comunicação. Esse processo é protagonizado pelo emissor e pelo receptor, unidos por uma mensagem que pode ser escrita ou transmitida por meio de uma imagem que, como disse Confúcio há 2.500 anos, vale mais do que mil palavras.
Com seu bom humor habitual, o torcedor colorado encerrou a palestra exibindo o escudo do Sport Club Internacional, cujo simbolismo representaria o que chamou de “síndrome do cólon irritável”.