
“No desenho de humor, o que mais importa é a ideia, não o traço”
Embora sejam sempre desenhados à mão, o que mais importa na criação de um cartum ou de uma charge não é o traço do autor, segundo a convicção do cirurgião Ronaldo Cunha Dias, compartilhada durante sua apresentação na Sessão Cultural da ASRM realizada nesta terça-feira (16). Autores de desenhos simples e com poucos detalhes, como Luis Fernando Verissimo e Henfil, são referências para ele. “É a ideia que interessa e pode valer até mil palavras”, afirma.
Nascido em 1951 e graduado pela primeira turma de Medicina da PUCRS, em 1975, Ronaldo cultiva desde os oito anos de idade o hábito de desenhar, atividade incorporada à sua trajetória artística e pessoal. “Prescrevo aos meus pacientes uma atividade diferente da carreira profissional como elemento de qualidade de vida”, relata. Por experiência própria, conta que, após rotinas estressantes no bloco cirúrgico, costuma desligar-se do mundo ao dedicar as noites ao desenho.
Durante mais de uma hora de reunião on-line, apresentou um panorama histórico do desenho de humor no mundo e explicou que cartum, charge, tira e caricatura são diferentes expressões de uma mesma busca: fazer rir. Segundo ele, o cartum não precisa de legenda, é crítico, universal e atemporal. A charge, por sua vez, necessita de palavras, está ligada ao contexto do momento, tem prazo de validade e mantém vínculos regionais. A tira é composta por uma sequência de três ou quatro quadros, enquanto a caricatura deforma ou exagera características físicas marcantes de uma pessoa.
“O desenho, por si só, basta para transmitir a um europeu ou a um japonês a ideia que crio em Vacaria, onde moro”, observa, destacando a realização que sente com esse “intercâmbio afetivo multinacional, estreitando laços e emoções”.
Ao abordar a história do humor gráfico no Brasil, lembrou que Nair de Tefé foi a primeira mulher caricaturista do país, assinando seus trabalhos com o pseudônimo Rian — seu prenome escrito ao contrário. Citou ainda nomes como J. Carlos, José Neves e Péricles, criador do personagem Amigo da Onça, publicado na revista O Cruzeiro.
Em sua avaliação, o Rio Grande do Sul destaca-se como um rico celeiro de desenhistas, chargistas e cartunistas premiados internacionalmente, entre eles Santiago e Edgar Vasques, além de Moa. O próprio Ronaldo acumula premiações nacionais e internacionais conquistadas em salões de humor gráfico, espaços que hoje se tornaram importantes vitrines para os artistas, diante do desaparecimento de revistas e jornais que marcaram época, como Careta, O Malho, Fon-Fon e O Pasquim.
Também é autor dos livros O Homem que Ri, Posso Rir Agora, Doutor?, Sorria… Você Está em Extinção e Rir Não Dói.