
A Reunião Científica da Academia Sul-Rio-Grandense de Medicina (ASRM), realizada neste sábado, 27 de junho, no auditório do CREMERS, abordou dois temas de grande relevância para a saúde materno-infantil: o uso de drogas durante a gestação e os avanços da neonatologia no cuidado aos prematuros extremos.
Primeira palestrante do encontro, a médica Maria Lúcia Oppermann apresentou dados de um estudo inédito sobre o uso de drogas por gestantes, cujos resultados foram considerados “estarrecedores”, na definição de alguns acadêmicos.
A pesquisa avaliou pacientes que consentiram em se submeter a testes durante a gestação e no parto, no Hospital de Clínicas de Porto Alegre. Como os resultados do rastreamento ainda não foram publicados, a chefe do Serviço de Ginecologia e Obstetrícia da instituição ressaltou os limites para sua divulgação. Ainda assim, destacou a importância do estudo para o diagnóstico e o tratamento de mães e recém-nascidos.
Segundo a médica, filhos de gestantes usuárias de álcool, maconha e cocaína podem apresentar sinais de abstinência, dificuldades para dormir e inquietação, condições que podem comprometer outros órgãos ainda imaturos e em desenvolvimento, além de aumentar o risco de alterações neuropsiquiátricas ao longo da vida. Os riscos tornam-se ainda maiores quando as mães permanecem usando drogas durante o período de amamentação.



Zona cinza
O segundo palestrante, Maurício Obal Colvero, responsável pelos Serviços de Neonatologia do Hospital de Clínicas de Porto Alegre e da Santa Casa de Porto Alegre, abordou os avanços na sobrevida dos prematuros extremos, especialmente daqueles nascidos a partir de 24 semanas de gestação.
“Bebês com 22 ou 23 semanas de gestação estão situados em uma zona cinza, em que ainda não conseguimos responder aos pais duas questões fundamentais: vai sobreviver? E, se sobreviver, terá sequelas?”, afirmou.
Segundo Colvero, os prematuros com mais de 24 semanas impõem à equipe médica a obrigação ética de realizar todas as intervenções tecnicamente possíveis para preservar a vida, sempre com o objetivo de promover uma sobrevida com qualidade.



Direito de viver
Na abertura da reunião, o Acadêmico Manoel Ruttkay Pereira, responsável pela condução dos trabalhos, fez um resgate da história da neonatologia, lembrando que houve um período em que os prematuros praticamente eram privados do direito de viver.
Em 1888, o obstetra francês Stéphane Tarnier, inspirado na forma como filhotes eram mantidos aquecidos em zoológicos, introduziu o uso de incubadoras no tratamento de recém-nascidos prematuros. Nas décadas seguintes, novos pesquisadores contribuíram para importantes avanços na especialidade.
Em 1901, Martin Couney desafiou os padrões éticos da época ao exibir prematuros em incubadoras em feiras públicas, cobrando ingressos para arrecadar recursos destinados ao tratamento dessas crianças.
Outro marco histórico citado foi a morte de Patrick Bouvier Kennedy, filho do então presidente dos Estados Unidos, John F. Kennedy, em agosto de 1963, apenas 39 horas após o nascimento. O episódio impulsionou investimentos governamentais de aproximadamente US$ 2,15 bilhões em pesquisas voltadas à neonatologia.
No Brasil, Manoel Ruttkay Pereira destacou que, em 1991, o Hospital São Lucas da PUCRS utilizou pela primeira vez o surfactante pulmonar para prevenção e tratamento da Síndrome do Desconforto Respiratório (SDR), marco importante na assistência aos recém-nascidos prematuros.


