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MAI. 2026 | ASRM debate avanço das apostas on-line e das dependências tecnológicas na era digital

A Reunião Científica da Academia Sul-Rio-Grandense de Medicina (ASRM), realizada no sábado, 30 de maio, reuniu especialistas para discutir os impactos das apostas on-line e das dependências tecnológicas na saúde mental. Os temas foram abordados pelos psiquiatras Felix Kessler e Daniel Spritzer, durante encontro realizado no auditório do CREMERS.

A abertura da programação ficou a cargo de Felix Kessler, professor de Psiquiatria e Medicina Legal da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), membro permanente do Programa de Pós-Graduação em Psiquiatria e Ciências do Comportamento da UFRGS e chefe do Serviço de Psiquiatria de Adições e Forense do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA).

Na palestra “Do lúdico ao patológico: jogos de azar e bets na cultura digital”, Kessler apresentou uma análise sobre a crescente popularização das apostas on-line e seus impactos sociais e comportamentais. Com três décadas de atuação na área das adições, o especialista acompanha o tema desde antes da popularização da internet e das redes sociais, que, segundo ele, potencializaram e aceleraram os chamados vícios modernos.

Políticas públicas e papel da família

Ao abordar o avanço das apostas esportivas e dos jogos de azar no país, Kessler classificou o cenário como “muito preocupante” e destacou a importância da atuação conjunta das famílias e do poder público.

Segundo o psiquiatra, pais e responsáveis devem acompanhar e estabelecer limites para o uso de celulares, computadores, videogames e demais dispositivos digitais por crianças e adolescentes. Ao mesmo tempo, defendeu a adoção de políticas públicas e campanhas educativas voltadas à prevenção da ludopatia, termo utilizado para caracterizar o transtorno relacionado ao jogo compulsivo.

Kessler também ressaltou a necessidade de maior regulamentação e fiscalização das plataformas digitais e das apostas on-line. Integrante de um grupo pioneiro no tratamento de apostadores criado no Hospital de Clínicas de Porto Alegre, afirmou que o acolhimento e o suporte ao paciente constituem os pilares fundamentais do tratamento.

Dependências tecnológicas e saúde mental

Na sequência da programação, o psiquiatra Daniel Spritzer apresentou a palestra “Mentes hiperconectadas e vidas desligadas: o avanço das dependências tecnológicas”.

Especialista em psiquiatria da infância e adolescência, Spritzer é pós-doutorando em Psiquiatria e Ciências do Comportamento pela UFRGS, coordena o Grupo de Estudos sobre Adições Tecnológicas (GEAT) e integra o grupo de trabalho da Organização Mundial da Saúde (OMS) sobre uso problemático de jogos digitais.

Durante sua exposição, o especialista abordou os impactos do uso excessivo de tecnologias digitais, especialmente entre crianças e adolescentes, que passam a utilizar celulares, jogos eletrônicos e redes sociais cada vez mais cedo.

Segundo Spritzer, o diagnóstico dos transtornos relacionados às dependências tecnológicas ocorre quando o comportamento passa a gerar prejuízos significativos na vida escolar, nas relações familiares e na convivência social. Entre as consequências observadas estão quadros de ansiedade, depressão, isolamento social e, em situações mais graves, ideação suicida.

O psiquiatra destacou ainda que o tratamento desses casos apresenta desafios específicos, uma vez que os pacientes costumam associar as atividades digitais às principais fontes de prazer e entretenimento. Conforme explicou, essa característica dificulta o reconhecimento do problema e a adesão ao tratamento.

Spritzer observou que, embora crianças menores possam ser monitoradas pelos responsáveis, a ampliação da autonomia durante a adolescência tende a aumentar o tempo de exposição às telas e aos jogos, favorecendo comportamentos de isolamento e afastamento das interações presenciais.