Dois anos antes de ser agraciado com o maior galardão da literatura mundial, o Prêmio Nobel de 1971, o famoso poeta chileno Pablo Neruda surpreendeu sua entrevistadora, a escritora Clarice Lispector e o meio cultural do país anfitrião. Para o ilustre literato em visita ao Brasil em 1969, era um médico mineiro chamado Pedro Nava o autor do seu poema preferido “O Defunto”. Mas quem era Nava para além do círculo de reumatologistas para quem representava um renomado precursor da especialidade? Pois Neruda esclareceu: “Leio ‘O Defunto‘, de Pedro Nava, em voz alta para meus amigos, com bastante frequência”. Mote do título da apresentação do palestrante da Sessão Cultural da ASRM desta terça-feira (18), Fernando Neubarth, “Pedro Nava, verniz e memória“, o poema escrito em 1938 é emblemático da relação de Nava com a vida e a morte.
No encontro on-line, Neubarth leu toda a poesia, que cita com ironia o verniz dos sapatos novos do morto inerte às vésperas do sepultamento.
‘Meus amigos! Tenham pena, senão do morto, ao menos dos dois sapatos do morto!
Dos seus incríveis, patéticos sapatos pretos de verniz. Olhem bem estes sapatos,
e olhai os vossos também…’
Até hoje, contudo, para Neubarth, Nava ainda é quase um desconhecido da maioria dos seus conterrâneos e sem receber a valorização que merece. É considerado o maior memorialista da língua portuguesa. Após aposentar-se, Nava escreveu, em curto período nos anos 1970/1980, cinco obras completas e uma sexta inacabada com memórias de notável importância sobre os tempos que viveu.
Outro texto lido por Neubarth, intitulado A Gripezinha, retrata cenas da gripe espanhola de 1918 como as mesmas trágicas situações da epidemia da Covid 19 mais de um século depois.
Produziu também obras sobre a história da Medicina e foi gravurista de qualidade artística elogiada.
Nascido em Juiz de Fora em 1903, Nava tirou a própria vida em 13 de maio de 1984 no Rio de Janeiro.