
Em viagens de trabalho, férias ou passeios pelo mundo, o Acadêmico Osvandré Lech sempre reserva um turno para visitar antiquários. Nessas incursões, em busca de livros médicos antigos e raros, incorpora novas preciosidades à coleção iniciada em 1979. Hoje, o acervo reúne cerca de 3 mil exemplares, devidamente catalogados e preservados em quatro bibliotecas em Passo Fundo.
Essa paixão foi tema da Sessão Cultural da ASRM realizada no final da tarde de terça-feira (20), com o título “Livros Médicos Antigos — A verdade que venceu o tempo”. Em transmissão virtual de Passo Fundo, o ortopedista, especializado em cirurgia da mão e do ombro e graduado em Medicina pela Universidade de Passo Fundo (UPF) em 1979, compartilhou histórias da atividade que define como um hobby.
O interesse pela bibliofilia ganhou força com presentes de professores que reconheceram sua curiosidade pela história. O primeiro veio do Dr. Alberto Lago, seu mestre durante a residência médica, de quem também foi assistente. A coletânea de livros médicos antigos recebida nessa ocasião tornou-se a base de seu acervo.
Poucos anos depois, em 1982, o professor Wayne Kotcamp, de Louisville, no estado norte-americano do Kentucky, presenteou-o com um exemplar da obra de Ernest Amory Codman sobre o ombro. Segundo o relato do Acadêmico, o volume integra uma tiragem de apenas 300 exemplares e consolidou sua paixão pelo colecionismo.
Defensor entusiasmado da preservação do conhecimento do passado, Lech realiza exposições, participa de palestras e feiras e estimula o interesse dos estudantes em sala de aula. Mesmo nos encontros com amigos, encontra uma maneira de transformar os livros em atração principal.
Para ele, colecionar obras raras e antigas tem múltiplos significados: preservar a história e a cultura, reconhecer seu valor bibliográfico, acadêmico e artístico e cultivar conexões emocionais com os lugares onde foram encontradas. A atividade também envolve investimento financeiro, exige estudo e proporciona a experiência tátil de tocar o passado.
Durante a apresentação, o Acadêmico mostrou como os livros permitem traçar uma linha do tempo da evolução da medicina e de suas especialidades. Entre os exemplos, citou o naturalista britânico Charles Darwin, cuja teoria da evolução por seleção natural transformou a compreensão sobre os seres vivos e a espécie humana.
Outra linha do tempo apresentada abordou a trajetória das publicações médicas no Brasil. Às obras estrangeiras que circulavam no país somaram-se, com o desenvolvimento do ensino médico a partir de 1808, teses e apostilas de poucas páginas e capas simples. Posteriormente, ganharam espaço livros mais extensos, com mais de cem páginas, capazes de “parar em pé”, na expressão utilizada pelo palestrante.
Na ortopedia, Lech destacou a contribuição do Dr. Sizínio Hebert e do clássico Ortopedia e Traumatologia: Princípios e Prática, publicado originalmente em 1995 e referência na formação de especialistas brasileiros. O próprio Acadêmico divide com Hebert a edição da sexta edição da obra. Também é um dos autores de Ortopedia no Brasil: 100 anos de História.
Escritor, tradutor e coautor, Lech alia a preservação de obras antigas à produção e à circulação do conhecimento. Ao comentar a apresentação, o presidente da ASRM, Acadêmico Sérgio de Paula Ramos, destacou a diferença entre acumular objetos e construir uma coleção com organização e propósito. Em sua avaliação, Lech reúne peças valiosas com uma finalidade bem definida e um entusiasmo contagiante.