A Reunião Científica do mês de abril da Academia Sul-Rio-Grandense de Medicina, que ocorreu no último sábado (26), abordou os riscos do uso indevido e descontrolado de hormônios. Ao final das apresentações, a Acadêmica Liselotte Menke Barea declarou-se “impactada”, sobretudo com os efeitos que resultam em danos vasculares e cognitivos.



Proclamando-se pessimista em relação ao rumo que o tema vem tomando, o confrade Rogério Sarmento-Leite afirmou que as más práticas se refletem nas salas de emergência, onde atua como cardiologista intensivista, atingindo cada vez mais jovens que utilizam anabolizantes em busca de corpos musculosos e bem delineados. “Só uma união forte e decidida de todas as entidades da área da Saúde do país pode evitar que um mal maior se alastre mais perigosamente ainda”, disse.
Da área da saúde mental, o Acadêmico Paulo Belmonte de Abreu sublinhou o “problema social” que atinge a família e a atividade profissional do paciente. Citou o caso de um empresário que passou da utilização de anabolizantes em academia para o consumo de cocaína, transformando-se em um homem agressivo e violento, rejeitado pelos funcionários, em conflito doméstico com a esposa e criando um cenário de temor constante dos filhos.
A Presidente da ASRM, a endocrinologista Miriam da Costa Oliveira, fez uma explanação histórica, desde a descoberta científica e o uso do termo hormônio no século XIX, passando por décadas de pesquisas e avanços até chegar à atualidade. Neste século, já ocorreram descobertas de novos hormônios, e estima-se que existam cerca de 50 tipos diferentes. Além disso, há neurotransmissores que se comportam como hormônios. Estudos indicam que a dopamina, conhecida como “hormônio da recompensa”, proporciona prazer elevado — superior ao consumo de chocolate, igual ao da relação sexual e só superado pelo fumo, cocaína e anfetamina.



De fato, a exposição do convidado especial, o endocrinologista e membro da diretoria da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, Clayton Macedo, mostrou uma realidade estarrecedora que pode comprometer gerações futuras de pacientes e até mesmo médicos, vitimados por uma avassaladora campanha midiática de desinformação, que prega milagres da chamada “era hormonal”.



Para ele, a internet, com plataformas liberadas para todos, é a principal causa dos efeitos danosos à saúde da população e dos prejuízos financeiros nos serviços públicos e privados de atendimento sanitário. Os chamados “influencers” das mídias sociais indicam procedimentos perigosos, não recomendados e desnecessários, como a reposição de testosterona e implantes hormonais, que atendem aos interesses econômicos de indústrias de medicamentos — envolvendo consultórios, clínicas médicas e até profissionais com CRM cooptados pelo sistema. Estes, por sua vez, seduzem estudantes de medicina e criam associações de especialidades inexistentes, omo medicina integrativa, ginecologia regenerativa e hormonologia. “Toda essa apologia de esteroides virou um balcão de vendas de hormônios — para acabar com a fadiga até aumentar a libido”, afirmou. O resultado desse abuso é depressão, ansiedade, agressividade e mortes súbitas.


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