Impressiona, especialmente aos leitores leigos e não médicos, a atualidade de um texto lido em 6 de dezembro de 1965, há precisamente seis décadas. Trata-se do discurso pronunciado no Salão Nobre da UFRGS durante a cerimônia de graduação da Faculdade de Medicina naquele ano. À exceção das inimagináveis transformações contemporâneas — avanços tecnológicos, inteligência artificial e a existência de um sistema público de assistência social da magnitude do SUS — o manifesto poderia perfeitamente ser datado dos dias de hoje.
Naquela noite, os integrantes da Turma de 1965, envergando togas negras, ouviam atentamente, ao lado do reitor Carlos Fonseca Milano, do diretor do curso Francisco Marques Pereira, do paraninfo Prof. Oly Lobato, dos mestres homenageados e de uma plateia de autoridades civis, militares e eclesiásticas, o jovem Waldomiro Carlos Manfroi, nascido em Nova Bréscia em 1937. Como seus colegas de turma Blau Fabrício de Souza e Carlos Henrique Menke, ele viria, no futuro, a integrar o quadro de Acadêmicos Titulares da Academia Sul-Rio-Grandense de Medicina (ASRM), fundada em 1990.
Nos anos seguintes, outros nomes presentes naquele cenário também ingressariam na ASRM, entre eles a professora Maria Clara Mariano da Rocha, e professores que se tornariam titulares, patronos, honorários ou eméritos, como Nicanor Letti e Mário Rigatto. O discurso também rememora docentes homenageados — Milton Pecis Abramovich, Manoel P. P. de Albuquerque, Ênio Candiota de Campos, Paulo Padilha Duarte, Luiz Alberto Fagundes e Ênio Barcellos Ferreira.
A reflexão apresentada por Manfroi percorre questões que permanecem atuais: a predominância crescente da especialização em detrimento da atenção do médico de família ao bem-estar emocional dos pacientes; a expansão comercial de fármacos produzidos em grande escala; a substituição da alimentação caseira por produtos processados em um contexto de mudanças no papel social das mulheres; e a sobrecarga do médico, cada vez mais numeroso no mercado, obrigado a atuar em vários serviços, muitas vezes exausto diante do aumento da demanda. O então formando também criticava a assistência pública insuficiente do SAMDU e defendia a necessidade de um sistema unificado de saúde — antecipando, décadas antes, o futuro SUS.
Manfroi destaca ainda a Santa Casa de Misericórdia como o centro médico mais avançado do Rio Grande do Sul e como espaço fundamental de formação prática para os estudantes agora diplomados. Ao mesmo tempo, ressalta a importância da conclusão das obras do Hospital de Clínicas de Porto Alegre e condena, com veemência, decisões políticas que determinavam a criação de novas faculdades sem condições adequadas de formar profissionais de excelência — crítica que permanece pertinente até hoje.
“Eu não mudaria absolutamente nada no discurso”, afirma o Acadêmico Manfroi, que dirigiu a Faculdade de Medicina em duas gestões: 1985–1988 e 2001–2005.
Neste sábado, dia 6 de dezembro de 2025, ele e Blau participarão de um almoço comemorativo na zona sul de Porto Alegre. Em meio ao resgate de memórias, também brindarão a recordação de Carlos Henrique Menke, que presidiu a ASRM e faleceu em 30 de março de 2023. Certamente terão motivos de sobra para celebrar trajetórias notáveis e legados construídos ao longo das últimas seis décadas.



