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Artigo: Os pacientes com hepatite C sumiram?

O sumiço dos pacientes com hepatite C crônica tem sido um consenso entre encontros de hepatologistas nos corredores de simpósios e congressos. Com o avanço da terapia com os antivirais de ação direta, a hepatite C praticamente não é mais assunto em eventos científicos e, quando o é, tem-se notado o esvaziamento dessas salas, permanecendo apenas alguns curiosos ou pessoas envolvidas em projetos específicos, especialmente quando há relação com políticas públicas de saúde.

Falando em política pública de saúde, a Organização Mundial da Saúde propôs a eliminação das hepatites virais como problema de saúde pública até 2030, o que não significa erradicar a doença, uma vez que não existe vacina, mas sim reduzir as novas infecções em 90% e as mortes em 65%. Estas mortes, em 2024, somaram mais de 1,3 milhão, o que representa mais de 3.500 vidas ceifadas por dia, segundo a própria OMS. É praticamente uma morte a cada 25 segundos.

Se compararmos com as mortes relacionadas ao HIV/AIDS, os números representam o dobro, pois, no mesmo ano, a UNAIDS informa cerca de 630 mil mortes relacionadas a esse agravo também relevante.

Mas, se morre tanta gente, onde estamos falhando?

Em primeiro lugar, é preciso entender que a epidemia não é a mesma nos dois hemisférios. Houve aumento de novos casos na Europa e nos Estados Unidos, ocasionado pela “epidemia” de drogas opióides injetáveis, como o fentanil. Tanto que, entre 2011 e 2020, as notificações de casos de hepatite C aguda aumentaram ano após ano, segundo dados do CDC americano.

Por outro lado, na América do Sul, onde as drogas injetáveis deixaram de ser a principal forma de uso de substâncias químicas ilícitas, temos visto os dados de prevalência diminuírem — de 1,38% em 2012 no Inquérito Nacional das Hepatites feito nas capitais, para 0,7% , em 2026, num recálculo por modelo matemático do Ministério da Saúde do Brasil (MS) e da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS). Em 2020, o Observatório Polaris afirmou que essa taxa seria ainda menor, não ultrapassando os 0,4%.

Em contrapartida, quando falamos em taxa de detecção da doença, o Boletim Epidemiológico do MS, publicado este mês, evidencia 9,1 por 100 mil habitantes. O mesmo boletim informa 12 capitais com taxas de detecção superiores à média nacional — e Porto Alegre tem se mantido nos últimos anos com a mais alta taxa, com números tão elevados quanto 50 e 58 por 100 mil habitantes nos dois últimos anos.

No SUS de Porto Alegre, ,mais especificamente nas unidades básicas da na nossa atenção primária a saúde (APS), a prevalência média de anti corpos por testes rápidos foi de 0,9% segundo nosso último relatório de gestão — o que já é bastante elevado — cabendo salientar que, quase 90% desses testes “positivos” são em pessoas com idade superior a 40 anos, entretanto, quando nos debruçamos sobre os projetos de microeliminação em nossa cidade, verificamos que, em determinadas situações de

vulnerabilidade, essas taxas podem chegar a mais de 15 vezes a média nacional (segundo informações do Polaris), ou mais de 20 vezes essa média (conforme dados do MS). Esses projetos, denominados de Teste e Trate, testaram cerca de 10 mil pessoas para hepatites virais, HIV e sífilis em seus três anos de existência, encontrando 6% de positividade em pessoas em situação de rua, 2% em privados de liberdade e de 3% a 7% em idosos em instituições de longa permanência (ILPIs).

Com este cenário, podemos inferir, em primeiro lugar, que a hepatite C tem “desaparecido” dos consultórios privados e de hospitais terciários, pelo fato de o serviço especializado de hepatites do município atender à quase totalidade dos casos com carga viral detectável , com “fila” de espera de não mais do que 7 dias— excetuando-se os pacientes com cirrose descompensada ou carcinoma hepatocelular que são referenciados para alta complexidade.

Por outro lado, ao falarmos de populações que não acessam regularmente os dispositivos de saúde, os números impressionam, conforme os exemplos supracitados. A hepatite C, em nosso meio, apesar da redução da mortalidade graças aos DAAs e às políticas de equidade, não desapareceu. Ela se tornou uma doença socialmente determinada, concentrando-se em grupos antes invisíveis — e quem é invisível, não aparece.

Dr. Eduardo Emerim
Hepatologista
Coordenador do Programa de Hepatites Virais da Secretaria Municipal da Saúde de Porto Alegre

Acadêmico Cláudio Augusto Marroni
Gastroenterologista