O dia 26 de abril é considerado o Dia Nacional de Prevenção e Combate à Hipertensão Arterial (Lei nº 10.439/2002 do Ministério da Saúde), no qual se destaca a importância da Hipertensão Arterial (HAS), tanto enfatizando sua alta prevalência quanto seu impacto na saúde da população adulta.
Nesse sentido, a HAS é a doença cardiovascular mais prevalente, afetando mais de 36 milhões de brasileiros adultos, sendo o principal fator de risco para doenças cardíacas e cerebrovasculares, além de ser a terceira causa de invalidez e importante corresponsável pelas causas de óbito (Fuchs F., PREVER-RCT, J Am Heart Assoc. 2016 Dec 13; 5 (12)). Segundo Fuchs, professor da FMUFRGS e um dos maiores especialistas dedicados ao estudo da hipertensão, uma pressão arterial sustentadamente acima de 120/80 mmHg explica entre 50% a 70% da causação de doenças cardiovasculares. Há estimativas consistentes de alta prevalência da hipertensão no mundo e no Brasil, onde um terço dos adultos possui pressão acima de 140/90 mmHg, sendo que, aos 60 anos, mais de 60% da população brasileira é hipertensa, sem contar a proporção adicional dos considerados pré-hipertensos.
Considera-se a importância da HAS isoladamente e quantitativamente como o fator de risco mais prevalente e modificável para o desenvolvimento da doença cardiovascular prematura, quando comparada a outros fatores como tabagismo, dislipidemia e diabetes mellitus, todos considerados fatores de risco maiores. Entretanto, a HAS frequentemente coexiste com esses e outros fatores, como obesidade, dietas não saudáveis e inatividade física. A presença simultânea de mais de um fator de risco aumenta consistentemente o risco cardiovascular.
Atualmente, a American Heart Association, em conjunto com a European Society de Cardiology, avaliando o pool de metanálises sobre HAS, envolvendo mais de 1 milhão de pacientes adultos, estabelece que o risco aumenta em todos os grupos etários, principalmente acima dos 50 anos de idade, com Pressão Arterial > 120/80 mmHg e, para cada 20 mmHg de elevação acima do normal da Pressão sistólica (PAS) e > 10 mmHg para Pressão diastólica (PAD), dobra o risco de morte por doença cardíaca ou AVC. Entre as complicações mais frequentes estão: a) Hipertrofia ventricular esquerda; b) Insuficiência Cardíaca; c) AVC isquêmico; d) Hemorragia intracerebral; e) Infarto do miocárdio e Doença cardíaca isquêmica; f) Doença Renal Crônica;
O diagnóstico de HAS requer a integração da monitorização da pressão arterial no domicílio ou ambulatorial, além das medições no ambiente clínico e serviços de saúde. Os atuais guidelines (Berlowitz, Capri et all, SPRINT Research Group N Engl J Med 2017; ACC/AHA High Blood Pressure Guideline. Circulation 2018) estabelecem como HAS uma pressão média do período diurno > 130/80 mmHg e no noturno > 120/70 mmHg.
Porém, é pragmático e útil utilizar a média de > 130/80 mmHg através de múltiplas aferições medidas com técnica apropriada, incluindo medições fora do ambiente do consultório. Na avaliação do paciente hipertenso, deve-se procurar determinar os seguintes elementos: a) a extensão de lesão em órgãos alvo; b) a presença de doença cardiovascular ou renal; c) a presença ou ausência de outros fatores de risco cardiovascular; d) os fatores de estilo de vida que contribuem e potencializam a HAS; e) uso de substâncias de interferência potencial (ex: uso crônico de anti-inflamatórios não-esteroides, contraceptivos, entre outros).
Ressalta-se que o manejo adequado da HAS tem sido considerado uma ação de sucesso em saúde pública quando bem conduzida em amplos sistemas integrados de saúde, sendo o alcance das metas de tratamento relatado em mais de 80% dos pacientes hipertensos em países do primeiro mundo.
Nesse sentido, é fundamental observar a aderência ao tratamento e às medidas de controle dos hábitos de vida de forma integrada, estimulando o comprometimento adequado do paciente e da equipe de saúde. Diante deste cenário, o Plano Global de Enfrentamento das Doenças Crônicas não Transmissíveis no Brasil estabeleceu a meta de redução da HAS em 25% entre 2015 e 2025.
No Plano de Ações Estratégicas para o enfrentamento das mesmas, no Brasil, foram definidas diversas medidas de prevenção, sendo as principais a promoção da saúde e de atenção relacionadas à Hipertensão: acordos com a indústria alimentícia para redução do teor de sódio em alimentos processados, incentivo à prática de atividade física por meio do Programa Academia da Saúde, e disponibilização gratuita de medicamentos para controle da HAS segundo classificação de risco (Andrade et al., 2015). No entanto, é importante destacar que a ocorrência dessas doenças pode ser influenciada, sobretudo, pelas condições de vida e pelas desigualdades sociais, o que implica dizer que nem sempre esses propósitos dependem apenas da intenção dessas medidas.
Os principais objetivos e formas de manejo dos pacientes hipertensos devem incluir:
- Orientação sobre a modificação dos estilos de vida (tipo de dieta, restrição da ingestão de sódio e potássio, redução do peso corporal, atividade física regular, abandono do fumo, uso moderado de álcool e controle do diabetes) de forma mais definitiva, pois somente o uso da medicação não é suficiente para assegurar o prognóstico.
- A decisão de iniciar medicações deve ser individualizada e combinada com a boa aderência do paciente e a adaptação do tratamento na presença concomitante de doença cardíaca e/ou vascular, AVC prévio, diabetes tipo 2 e doença renal crônica.
- Observar a possibilidade de haver HAS de causa secundária ou resistente (doença renovascular ou renal primária, HAS induzida por drogas, feocromocitoma, aldosteronismo primário, entre outros) que exigem abordagem específica para essas situações sob risco de não se obter o controle da HAS.
- Estabelecer uma meta de tratamento, por exemplo, PA < 135/85 mmHg, mas cuidando do seu ajuste em pacientes de hipotensão variável ou postural, presença de efeitos adversos dos medicamentos anti-hipertensivos.
- Sempre individualizar e ajustar o tratamento para pacientes idosos > 75 anos com comorbidades, ou com PAD menor de 55 mmHg, idosos com demência e fragilidades, mais propensos a ter efeitos adversos decorrentes do tratamento.
Este breve relato tem como objetivo ressaltar a importância da HAS e seu impacto na saúde da população, o que determina a necessidade absoluta de programas integrados do Ministério da Saúde com as Entidades Assistenciais de Saúde na adoção de ações de eficácia comprovada, tanto no atendimento do paciente quanto no amplo esclarecimento e orientação da população no seguimento dos programas de prevenção e controle.
Artigo escrito pelo Acadêmico e Professor Titular de Clínica Médica da UFCSPA Nilton Brandão da Silva.