Pesquisar

Medicina, profissão impossível. | Sérgio de Paula Ramos*

Hoje, quando se comemora o Dia do Médico, volta à minha memória a expressão do já falecido Prof. Mário Rigatto. Dizia ele desconhecer outra profissão na qual o profissional luta para diminuir o seu mercado de trabalho. Sim, é isso que fazemos quando insistimos em prevenção e diagnóstico precoce. Se a sociedade nos ouvir, será verdade, teremos menos pacientes.

E o que há para comemorar em nosso dia?
Ser médico gera a possibilidade de gratificação diária quando ajudamos nossos pacientes a se livrarem de suas dores, quer sejam elas físicas ou psíquicas e, em extremo, quando conseguimos evitar uma morte. Essa alegria, justamente compartilhada pelos demais profissionais da saúde, é singular e não tem preço. Estudamos inicialmente 6 anos para receber o diploma, depois mais 2 a 5 anos, conforme a especialidade escolhida, para nos sentirmos habilitados para executar nossa missão e, durante toda a vida, se quisermos ser úteis a nossos pacientes de forma continuada.

Portanto, formar um médico qualificado não é tarefa fácil e é impossível de ser feita se não se dispuser de professores qualificados, adequada infraestrutura de ensino e hospitais-escola de excelente nível técnico.

Por isso, nesse 18 de outubro, assola-me uma preocupação com o futuro dos médicos que neste ano tentarão entrar em uma faculdade de medicina.

Em anos recentes o governo federal autorizou a abertura de um número inusitado de faculdades de medicina. Hoje já são 448! Isso coloca o Brasil como campeão mundial de escolas médicas por milhão de habitantes. Sim, nós apresentamos 2,1/milhão de habitantes enquanto essa proporção nos EUA é de 0,6, na Inglaterra de 0,7 e na Índia de 0,4.

Claro está que o governo federal passou a autorizar a abertura de tantas escolas médicas sem o devido cuidado de verificação sobre a capacidade dessas faculdades de gerar bons médicos, uma vez que existem algumas que sequer dispõem de hospital de ensino, uma ao menos em que as aulas de anatomia são dadas por professora do colégio do município e outra dispõe de um único cadáver para 200 alunos estudarem anatomia.

Que tipo de médico sairá dessas faculdades? Acho ser justo não desejar ser atendido por nenhum deles.
Concluindo, seguimos tendo prazer no que fazemos, mas muito preocupados com o futuro da medicina no Brasil, que, desse modo, ficará cada vez mais uma profissão impossível, como professava Rigatto.

* Médico psiquiatra, Presidente da Academia Sul-Rio-Grandense de Medicina.